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Conto - O primo Getúlio, por André Alvez

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia conto do escritor André Alvez (Campo Grande MS), com "O primo Getúlio".


O PRIMO GETÚLIO


Ele morava na cidade maior e vinha sempre depois da chuva, quando a

enxurrada começava a secar e o arco íris apontava no céu. Era o anúncio de

desgraças, o sapato enlameado, a testa larga suando bicas e ele a enxugava

com um lenço fino preso aos dedos. Era calvo e tentava ocultar a falha

penteando os cabelos do lado direito para o centro da cabeça, mas os sopros

do vento tornavam indisfarçável a calvície.

Era primo da minha avó, mas todos lá de casa o chamávamos de primo

Getúlio.

Da última vez, vó Ana o recebeu fazendo um gesto de baixar os olhos e erguer

as mãos trêmulas num cumprimento frio e angustiante. Getúlio esperava com

calma o pessoal de casa se juntar em torno dele, necessitava de plateia. “Um

copo d’água” pedia, tentando disfarçar a ansiedade. Bebia o copo d’água

ofertado de um só gole, os cabelos fininhos saltando pelos lados e mostrando

plenamente a calva.

A camisa de algodão, azul clara e de botões brancos, perfeitamente passada,

combinava com a calça de tergal azul marinho, feita com esmero e com os

vincos bem passados. De um modo teatral, lançava olhares para os lados para

se certificar que todos os parentes estavam em volta dele. Então suspirava

profundo e pigarreava um jeito de asmático. Era nesse momento, o da tossida,

que minha avó não se continha:

- Então Getúlio, nos conte...

Ele acelerou as batidas dos pés no assoalho, resultando em um barulhinho

curto e baixo, encarou a minha avó, como se pretendesse falar apenas para

ela:

- O compadre Luiz Vieira...

Imediatamente vó Ana pôs a mão na boca, surpresa, assustada, enquanto nos

entreolhávamos na tentativa de saber se algum de nós conhecia o falecido.

- Mas como? Um homem tão novo...

- Pouco mais de quarenta – respondeu o Getúlio na voz seca dos conformados.

- Morreu como?

- Coração. Acordou cedo, sentou-se à mesa para tomar café, de repente,

soltou um grito de dor e caiu no assoalho, morto na hora.

- Pobre Juliana...Vou me arrumar, preciso ir dar um abraço de conforto nela e...

- Não será preciso. Juliana também morreu, se enforcou no dia seguinte.

- Meu Deus!

- Pois é, não aguentou.

- E os meninos?

- O mais velho está preso.

- Como assim?

- Foi pego roubando uma bicicleta.

- E aquele menorzinho?

- Desse ninguém sabe o paradeiro. Entrou num ônibus para São Paulo e se

mandou. Mas sabe, a vizinhança falava coisas terríveis sobre ele.

- Que coisas terríveis?

- Aquele lá, desde pequeno gostava de brincar de bonecas com as meninas,

andava com o calcanhar erguido, parecia uma bailarina. O que dizem é que se

veste de mulher nas esquinas da capital.

- Mas será?

- É o que dizem...Compadre Luiz morreu de desgosto.

- Ai, pobre Juliana.

- Ela era a culpada do menino ser daquele jeito, não deixava o pai surrar...

- Tem coisas que a gente não consegue corrigir, Getúlio.

Nesse instante, tio Getúlio se ergueu, ajeitou a calva e largou uma voz grossa.

- Reio bem dado dá jeito nisso sim. Eu sei porque meus filhos apanharam, mas

viraram gente.

Um silêncio de olhares nos assomou naquele instante. Sabíamos que o filho

mais velho do tio Getúlio era do bando dos irmãos baianinhos.

Sem mais dizer, tio Getúlio se dirigiu até a porta de saída, olhou para o céu e

sorriu:

- Nenhuma nuvem, graças a deus.

E foi embora naquele jeito silencioso de carregar mortes, sequer pressentiu a

carroça desgovernada na ponta da rua, o baque seco, o corpo magro dando

giros no céu, o corpo caído estatelado na porta de uma venda. Gritos de todos

os lados. Corremos para lá, ajeitamos o corpo para cima e dos olhos do tio

Getúlio escaparam lágrimas de chuva, a boca cuspindo sangue, a notícia que

nunca pensou dar...

Minha avó olhou para nós triste e pesarosa:

- E agora, quem vai nos avisar das mortes?

Ninguém respondeu, ninguém sabia, mas desde então, sempre depois da

chuva, olhamos para o alto da rua e um frio medonho nos percorre a espinha.

E oramos para a enxurrada secar ligeira

 
 
 

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