Artigo - As Contradições Entre a Narrativa de Riedel e a Dura Realidade, por Paulo Esselin
- Alex Fraga

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Sábado no Blog do Alex Fraga novo artigo do professor titular da UFMS, Paulo Esselin (Campo Grande MS), com As Contradições Entre a Narrativa de Riedel e a Dura Realidade
As Contradições Entre a Narrativa de Riedel e a Dura Realidade
***Paulo Esselin
Ignorar o abismo entre o discurso e a prática de Eduardo Riedel é uma escolha. Há três anos, o governador utiliza a imprensa para entoar uma 'música' de eficiência na Educação, Saúde e Segurança Pública. Nos balanços de final de ano, a estratégia se repete: ele classifica essas áreas como prioridades permanentes e garante a continuidade de suas políticas através de um suposto planejamento equilibrado. No entanto, para o cidadão que vive a realidade do estado, as narrativas riedelianas começam a soar como promessas em ciclo perpétuo. Tanto que nos seus pronunciamentos de final de ano, voltou a ressaltar que essas áreas- SÃO PRIORIDADES PERMANENTES NO SEU GOVERNO e deverão continuar sendo tratadas assim, neste último ano de sua gestão.
A título de curiosidade: este escriba lembra de um pronunciamento na TV do nosso Governador, no final de 2025, em que ele desejou, entre outras coisas, muita saúde à população. Esqueceu-se apenas de declarar a informação mais importante: como os Sul-mato-grossenses poderiam obter essa tão desejada saúde? De modo que sua mensagem soou vazia e até mesmo insensível e sem empatia, pois Eduardo Riedel finge desconhecer que entre seu bonito discurso e a precária realidade dos hospitais e postos de saúde existe um profundo abismo e se traduz numa desconexão reveladora de uma cruel insensibilidade humana e sociopolítica principalmente para os cidadãos que mais dependem do Estado para viver com um mínimo de dignidade. E é com muita preocupação que antevemos que tal realidade só tende a piorar neste 2026: se Eduardo Riedel continuar focando e dando assas à sua imaginação expondo e divulgando apenas promessas, em vez de investir na efetiva capacitação, valorização, investimentos reais nas áreas já citadas, principalmente na área da saúde, cada vez mais precária na sua gestão. No entanto, nas matérias publicitárias de seu governo , divulgadas em horário nobre, Eduardo Riedel continua “fazendo cara de paisagem “, ignorando a extrema precarização em que se encontra o cenário de atendimento por médicos e enfermeiros à nossa população, pois não contam com equipamentos adequados e necessários para consultas e exames, faltam medicações em diversas regiões, acarretando demora no atendimento; há escassez de vagas em enfermarias e UTIs, obrigando os hospitais a manterem pacientes em áreas de circulação, acomodados em macas e cadeiras nos corredores, enfrentando grandes transtornos. Eis aí a realidade perversa em diversas unidades de saúde de Mato Grosso do Sul. Diante de um quadro tão crítico – e REAL- como acreditar ainda no discurso da narrativa governamental da tal “Saúde Para Todos “? Ou no mote que neste atual governo “Ninguém Fica Para Trás “? Acredite, senhor governador: De fato, sentimo-nos, de fato, que no seu governo estamos todos na frente, mas carregando um sentimento de descaso e uma sensação de desamparo que não se cura, não sara. O que atesta a existência de um distanciamento real entre seu desejo verbal e a política executada pelo seu governo.
Infelizmente, é grande o número de desinformados, crédulos, ingênuos e “desavisados” que ainda não se deram conta do que está acontecendo por trás dos bastidores. Vejam vocês um exemplo: em recente entrevista concedida ao Jornal “Correio do Estado” ao jornalista Eduardo Miranda, o Governador Eduardo Riedel aborda o êxito de sua gestão pontuando a convergência entre os indicadores positivos em áreas como a Saúde, Educação e Segurança Pública e um volume inédito de aportes de recursos públicos. No entanto, nos chamou a atenção o fato de ter omitido que, ao lado desses aportes, que ele considera significativo também investiu vultosos recursos no complexo agroindustrial e florestal, além de premiá-lo com desonerações fiscais! (A notícia de que nosso Estado vem operando sobre um estruturante pilar excessivamente oneroso ao erário público utilizando-se de um modelo de incentivos em que a competitividade das cadeias de commodities é subsidiada pela via fiscal, fortalecendo os setores da soja, da carne e da celulose, sabidamente não é divulgada pelo nosso governador). Ou seja, os alardeados “investimentos recordes” na Saúde, Educação e Segurança Pública nada significam diante do montante de investimentos feitos e da “gentileza” da oferta do regime de renúncia fiscal para as outras áreas do setor produtivo, projetando para este 2026 um impacto de R$ 11,95 bilhões nas contas públicas! O mais importante, esse aporte ao agronegócio supera de longe os orçamentos em Saúde, Educação e Segurança pública que juntos, somam R$ 8,9 bilhões, muito aquém dos recursos destinados a iniciativa privada, através da renúncia fiscal.
A ausência desse tema no discurso oficial é proposital pois intenciona ocultar a complexidade de uma estratégia que beneficia outras classes sociais que não as trabalhadoras, estas, sem dúvida, as mais vulneráveis e necessitadas da oferta de ações e atividades de saúde, educação e segurança pública.
Esses descalabros podem ser melhor entendidos a partir da leitura do relatório Resumido de Execução Orçamentária (RREO) e do Tesouro Nacional, que comprovam a tese do subfinanciamento da saúde crônico em Mato Grosso do Sul.
Vejamos: em 2025, o Estado registrou uma das menores participações proporcionais de gastos em Saúde, aproximadamente 10% da despesa total da máquina pública, situando-se abaixo da média necessária para a sustentabilidade do sistema frente à demanda reprimida. As investigações conduzidas pelo Ministério Público de MS (MPMS) sobre as filas de cirurgias eletivas e otorrinolaringologia pediátrica demonstram uma; impossibilidade de solução sob a atual estrutura de convênios e vagas, evidenciando uma falha no planejamento sanitário estratégico.
“Batendo na mesma tecla” (faz-se necessário) o governador impôs, em agosto de 2025, um Decreto determinando uma redução de até 25% nas despesas de custeio da máquina pública, implementando um severo Plano de Austeridade, sob a justificativa, segundo ele, de evitar aumento da carga tributária. A tal “responsabilidade fiscal” sempre lembrada por ele. E se ele lembra, lembramos nós também que, em contrapartida, Eduardo Riedel não reduziu um centavo sequer do agronegócio, da celulose, da soja, do boi: o montante de gastos tributários indiretos saltou de R$6 bilhões para R$ 11,95 bilhões, beneficiando predominantemente o complexo agroindustrial e de celulose. Também extinguiu a paridade de exportações, atendendo a demanda do agronegócio, decretada em fevereiro de 2025 e consolidada em 2026, resultando na materialização de uma política de desoneração que privilegia grandes tradings e o setor de commodities, em detrimento do comércio varejista e dos serviços, que detêm maior densidade empregatícia urbana.
“O governador que, sob a alegação de Responsabilidade Fiscal, nega investimentos em saúde, educação e segurança é o mesmo que, segundo o “Jornal O Jacaré” pagou supersalários de R$ 302 mil e de R$ 351 mil a 17 (dezessete) promotores e procuradores de Justiça apenas no mês de dezembro do ano passado. Esse valor é sete vezes superior ao piso nacional do funcionalismo público, que é o subsídio de R$ 46,3 mil pago a um Ministro do Supremo Tribunal Federal. Como a renda média do Sul-mato-grossense é de R$ 3,4 mil por mês, um trabalhador “comum” levaria oito anos e sete meses para acumular o valor pago em único mês ao promotor”. (Jornalista – Priscilla Peres, 26/01/2026)
Mas, não para por aí. O governador Riedel tem bom coração, ôh, se tem! Iniciou 2026 presenteando o Sul – mato – grossense com o aumento da alíquota do ICMS sobre combustíveis, apesar das promessas de campanha pela manutenção da carga tributária, o que gera um efeito cascata inflacionário. Mas o produtor rural, seja pessoa física ou jurídica- tem o direito garantido de recuperar o ICMS pago na compra de óleo diesel, desde que, utilizado na produção agropecuária. O conhecido Recuperação de Crédito de ICMS.
E nós, pobres mortais, fomos presenteados com a elevada taxa de IPVA, (a mais cara do país,) com variação entre 5% a 6% do valor venal do veículo.! Nesse quesito, somos imbatíveis, estamos à frente dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mas, resistiremos e vigiaremos. Ora se não! Como escreveu (embora sejam muitos os que pensam que a icônica frase é de Millôr Fernandes) o jornalista, advogado e político irlandês, John Philpot Curran, célebre por sua defesa das liberdades civis e políticas: “O preço da democracia é a eterna vigilância “





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