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Conto - O pescador de histórias, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 5 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acumputurista e escritor de Campo Grane (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O pescador de histórias".


O pescador de histórias



Zé Curioso praticava pesca amadora, tanto com rede quanto com vara e anzol. Acordava e deitava com a pescaria na cabeça. Pesca diferente, ao invés de peixes, Zé pescava ideias que saíam d’água em forma de histórias . Com os ouvidos atentos, às vezes nem precisava de isca. A história alheia vinha da boca do contador e vupt, Zé a apanhava em sua rede.

Zé, como todo bom pescador, tinha suas artimanhas para pescar ideias. Quando os peixes não vinham espontaneamente ele jogava o anzol. Perguntar sobre o passado de alguém conhecido quase sempre servia de isca. Ele sabia que os melhores peixes são pescados em águas próximas. Memórias familiares têm a capacidade de fisgar peixes grandes, habitantes de águas profundas e os mais gostosos de serem pescados.

Meio bisbilhoteiro, Zé não podia escutar um caso, por mais banal que fosse, e logo o queria colocar no papel. Mas escrevia do seu jeito. Vez por outra acrescentava um personagem, mudava o nome de outro, misturava várias histórias meio reais e criava uma outra bem inventada. Contudo, o Zé às vezes entrava em crise existencial e não sabia mais a quem pertenciam os peixes pescados. O mar é generoso, os peixes são da natureza e não deveriam pertencer a ninguém. O texto depois de escrito, assim como o peixe pescado, naturalmente deixa de ser do pescador e vai ser saboreado pelo leitor “a sua moda”.

Aliás, o Zé nutre um certo desconforto com tal questão. Seu sofrimento é saber como suas histórias chegam aos seus leitores. Que confusão é essa de ouvir uma história, pescar a ideia e criar outra história? Afinal de quem é a história? Intrigado, Zé arrisca que histórias possuem vida própria e depois de escritas ganham o mundo e deixam de pertencer ao escritor. Triste a sina do escritor ao se tornar pai adotivo de filhos pródigos. E como a maioria dos pais e mães, Zé deseja que seus filhos ganhem o mundo e sigam adiante. Quanto orgulho quando um pai ou uma mãe ouve alguém elogiar seu filho e ainda diz como ele foi bem criado.

Sempre pescando, os peixes vão aumentando em quantidade e variedade. Agora Zé tem uma importante questão para resolver, quer um aquário para expor alguns dos peixes pescados. Ele imagina um aquário diferente onde os peixes não permaneçam presos. As pessoas, dependendo do tipo de olhar, poderão os levar consigo. Quanta felicidade, se seus peixes forem soltos na mente, ou melhor ainda, se ficarem na memória ou mesmo no coração de um leitor. Assim como os peixes precisam de água com oxigênio para viver, livros não lidos morrem, quando perdidos em estantes e gavetas fechadas.

Zé imagina que peixes variados ficariam bacanas em um mesmo aquário. Quem sabe espécies de mesmo tamanho ou com tonalidades parecidas. A iluminação do aquário poderia incidir e provocar um efeito interessante de conjunto. Então, Zé foi separando os peixes já pescados. Os dourados dos prateados, os pequenos dos maiores, os mais redondos dos mais achatados. Mas para complicar, Zé possui um pequeno grau de daltonismo. E tem certa dificuldade para distinguir nuances de algumas cores. Zé receia que pescou muitos peixes em tons de cinza. Também pode haver misturado peixinhos azuis com verdes. Isso não é problema, pois cada leitor usará suas próprias lentes. Pode ser até que alguém mais perspicaz, encontre uma lagosta ou um siri entre os peixes pescados. E para o Zé, o que realmente importa é que todo o dia é dia de pescaria e o seu lema é:

— Bora pescar!


Recado do autor:

A pescaria tem sido generosa e ela agora me proporciona um momento importante e muito especial em minha trajetória de escritor. Gostaria de compartilhar, em primeira mão, aqui no Blog do Alex Fraga, que meu primeiro livro está no prelo e em breve será publicado. É uma coletânea composta por trinta contos curtos com temática existencialista. As histórias percorrem as várias fases do ciclo vital, partindo do período pré-natal, nascimento, infância, idade adulta, terminalidade da vida, morte e chegando até um pouco mais além.


Livro: O polonês melancólico. Autor: João Francisco Santos da Silva. Editora: Samsara. Encontra-se em período de pré-venda e maiores informações sobre o livro podem ser vistas em:


 
 
 

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