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Conto - O homem que só tinha nariz , por André Alvez

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 1 dia
  • 11 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o escritor e poeta de Campo Grande (MS), André Alvez, com O homem que só tinha nariz .


O homem que só tinha nariz


Quando o sol iluminou o quarto anunciando um novo dia, Carvalho soltou um largo suspiro de desesperança. Era um homem quieto e taciturno. Tinha o rosto redondo, olhos pequenos, quase nada, boca miúda, um risco sem carne, e orelhas que não apareciam, apesar dos poucos cabelos. O resto era o imenso nariz. Não sem razão, Carvalho tinha cisma e vergonha do próprio nariz. Quando criança, os mais velhos, às escondidas, o chamavam de Cyrano, mesmo que quase ninguém suspeitasse de Edmond Rostand. Alguém disse Cyrano e todos acharam graça. Os meninos da escola simplificavam fazendo gestos de quem sente falta de ar perto dele. O singelo, porém arrasador apelido “narigudo” pegou feito fogo na palha. O joelho estalou ao se levantar da cama. Pensou na vida: na repartição, após longo tempo, conseguiu chegar ao cargo de superintendente de um departamento. Não que isso fosse importante; o setor servia apenas para resolver dúvidas dos funcionários, e nenhum funcionário, aparentemente, tinha alguma dúvida, pelo contrário, muitos diziam saber demais. Carvalho tinha uma secretária, na verdade, sua única subordinada, dona Márcia, mulher voluptuosa e em cujo cantinho direito da boca se destacava uma pintinha preta. Sensual até no caminhar, driblava o vento, fazia desabrochar pensamentos sensuais nos incautos, inclusive no clero durante as missas dominicais, até mesmo nas moças das outras repartições, expostas em suspiros silenciosos de inveja e pecado. - Dona Márcia, me passe a agenda. Ela se esforçava para não encará-lo, incomodada com a estranha aura de mistério que o chefe exalava pelos poros, como uma advertência quieta, um sombrio sinal de exagerado respeito. - Dona Márcia, tire uma xerox. Ah, ela gostava de se ajeitar na cadeira, provocando incômodos, e até ao atender o telefone se mostrava sensual, a voz rouca, os lábios que ardiam a cada 1 mordiscar na ponta da caneta. O cheiro de fêmea caminhava a cada palmo da sala, indo se espalhar nas enormes narinas e o homem, queimando os olhos miúdos, corria a chorar no banheiro, prenhe de paixão e desespero. A secretária era a única na repartição que fingia não perceber o imenso nariz do chefe. Talvez pelo salário, talvez porque, na quietude da sua alma, habitava um ser libertino, inquieto e curioso: será que só o nariz é enorme? Carvalho era um ser solitário, já passado dos quarenta, não tinha amigos, não formou família, vivia isolado em uma casa de tábua colorida de azul e telhas da cor de barro. Conversava com os telhados, reclamava da desdita: se o problema fosse nos olhos, usaria óculos escuros; se lhe faltassem mais cabelos, usaria um boné; se a boca fosse enorme, um buço bastaria. Mas o nariz... Não dava para disfarçar. Uma operação plástica talvez resolvesse, mas Carvalho era perdulário, gastava o que recebia com bugigangas, coleções de gibis, de moedas, pedras coloridas e qualquer outra coisa que chamasse a atenção dos seus olhos miúdos. Para o tempo passar, fazia pães de diversos tipos. Assava na brasa de um fogão de barro, sua única herança, deixando a cozinha sempre quente. Apertava as massas imaginando amassar o próprio nariz, e então sorria um riso misturado com o suor do cansaço. Poucas vezes na vida se envolveu amorosamente; preferia o prazer solitário e quando nem isso dava jeito, buscava auxílio nas putas das casinhas coloridas da Vila Carvalho. Diante da mulher nua, não fazia quase nada, mal se despia, apenas cheirava cada canto do corpo dela, se detendo por mais tempo onde o odor era mais forte. Elas não se incomodavam que ele as cheirasse, algumas até sentiam prazer alisando o nariz enorme. Quando terminava, os pequenos olhos se abriam, o gozo acabado, sentia um misto de alívio e culpa, se ajeitando apressadamente, tentando disfarçar a mancha redonda no canto da calça. Dormia pouco, cinco horas no máximo. Lá fora, o desprezo dos homens o aguardava. A rotina incluía o ônibus lotado pela manhã – tinha condição de comprar um carro se não gastasse tanto com 2 bobagens e se soubesse dirigir – e o mesmo caminho de sempre até a repartição, fugindo dos olhares espantados das outras pessoas, risos de deboche, gestos acusatórios que fingia não ver, apesar do desejo de que um de seus olhos, naqueles momentos, fosse parar na nuca, não porque se sentia ameaçado, mas porque na nuca não havia nariz e, então, podia olhar melhor os rostos das outras pessoas. Às vezes fingia um espirro, uma falta de ar, só para coçar o nariz com as duas mãos e esconder a vergonha. Sua sala ficava ao fundo da repartição e ele precisava atravessar um corredor abarrotado de outros funcionários. Outra tortura. Os colegas sorriam alto: o futebol era o assunto, ou a novela, até mesmo uma bobagem de alguém, mas ele sempre imaginava que todas as conversas fossem sobre o seu nariz. Então se recolhia num canto; pouco trabalho a fazer, quase nada, as horas não passavam, Márcia balangando de lá para cá, penteado novo, esmalte de cor diferente, um leve sorriso de malícia agitando o cantinho da boca, coisas que poucos homens reparam com tanto cuidado e detalhes. Novo namorado – pensou, amaldiçoando a própria covardia, voltando no tempo em pensamento e fazendo diferente das diversas vezes que pensou em convidá-la para o jantar, mas recuou, tomado pelo medo da recusa, principalmente, mas também no receio dos tenebrosos olhos alheios e dos comentários sem falas, os rápidos sinais de testa das outras pessoas no restaurante, do riso disfarçado do garçom, do rosto surpreso do motorista do táxi: o que uma moça tão bela faz ao lado de um homem que só tem nariz? E o desejo se esvaía. Na maior parte do dia, se perdia em pensamentos, com a cabeça baixa, anotando alguma coisa, posição ideal para esconder o imenso nariz. Márcia tinha um brilho no rosto, a pintinha no canto da boca brilhando cada dia mais, os olhos úmidos quase sempre, de desejos ou pilhéria, Carvalho tinha dúvidas. E o balangar do quadril, ah, aquele balangar... – Bom dia, doutor Carvalho – ela dizia todas as manhãs, e ele não sabia se o doutor era sinal de respeito, costume ou pilhéria. Não tinha nada de doutor, se formou em administração num curso a distância, 3 não suportou frequentar as aulas presenciais porque o nariz chamava muita atenção e o pó do giz o fazia espirrar. E o espirro de um nariz daquele tamanho era uma pequena explosão. Teve um pouco de paz na adolescência, quando apontaram no rosto os doloridos pontos inflamados da puberdade. Foi um alívio efêmero, logo as espinhas amadureceram, estouraram, sumiram e os olhares sem fala voltaram ainda mais intensos, apontando com gestos rápidos o imenso nariz. – Bom dia, dona Márcia, o que temos para hoje? – pergunta formal, muito mais por costume do que necessidade, nunca havia muito o que fazer na repartição. Depois assinava a ficha de presença e os dois se aquietavam, embora os olhos dela permanecessem umedecidos, combinando com a luz da pintinha no canto da boca. O pior dia da semana para Carvalho era o domingo. Acordava cedo como todos os dias e sentia falta da rotina dos dias da semana, até mesmo do ônibus lotado e os olhares curiosos à sua volta. Aonde ir? Quase sempre o mesmo lugar, o Parque dos Poderes, longe dos homens, perto da natureza: jogava pedras no lago, uma forma de amenizar a tristeza, dava aos pombos chumbos envenenados só para ver o sofrimento dos bichos e, assim, descarregar a própria agonia. - Pombo é igual nariz grande, não serve para nada - No rosto, nenhuma marca de arrependimento. Depois disfarçava, tentando descobrir o nome das plantas esparramadas em torno do lago. À noite, as paredes do quarto se fechavam no pensar vagaroso de dedo na testa, tentando esconder o nariz, mesmo estando sozinho, caçando no ar algum motivo para dormir. Solidão machuca mais ainda quem prefere o isolamento. A ideia da morte ganhava corpo aos poucos e ele tentava afastar os maus pensamentos se distraindo na cozinha, assando pães. Veneno para ratos em grandes proporções pode causar a morte em humanos – pensou, enquanto apertava a massa do pão. Ao invés de açúcar, 4 usou um pouco de veneno. A morte seria lenta. Imaginou a cena do próprio velório e riu como só fazia quando estava sozinho, o rosto rosado, os olhos pequenos abastecendo a mente com a imagem das pessoas tentando fechar o caixão sem conseguir, o nariz não permitia a tampa chegar à trava. Pronta a massa do pão de veneno, levou-a ao forno e pensou na vida, nos tempos de moleque e nos meninos que faziam graça do seu nariz dizendo, em meio a risos, que não precisavam de bola para o futebol, já a tinham na cara assustada do colega. - Meu pai tinha o nariz grande, mas nem tanto. Minha mãe também tinha nariz grande, porém, sequer chamava atenção. Eu peguei o tamanho dos dois e mais um pouco – imaginava, enquanto a massa queimava na forma e o cheiro ocre do veneno assado se espalhava aos poucos, desfilando em torno do seu rosto uma fumaça densa, até rumar às imensas narinas. Quando o pão ficou pronto e ligeiramente azulado por conta do veneno, uma ideia lhe ocorreu; novamente sorriu, fazendo arregalarem os olhos miúdos. E no ato imediato, juntou outra massa para pão, dessa vez com polvilho e açúcar no lugar do veneno. Faria uma espécie de roleta russa, fecharia os olhos e rodaria os bolos na mesa, pegaria um pedaço ao acaso e comeria. Assim, o destino decidiria se a morte era o caminho ou a vida prosseguiria, ainda que carregando o imenso nariz. Seus olhos brilharam num raio de ansiedade quando a outra forma de pão ficou pronta; acariciou o nariz e suspirou: - agora a sorte dará o nosso destino. Ajeitou com cuidado os pedaços do pão, cada qual em um saco plástico diferente. Olhou para a mesa, sentiu o silêncio lá fora, aquele era o momento. Mas recuou, abraçado num pensamento de medo: se o pedaço escolhido fosse o pão envenenado, morreria trancado em casa e somente seria encontrado quando o corpo já estivesse podre. Outro 5 pensamento lhe arrancou um grito incontido: E se tudo apodrecesse e restasse intacto o nariz? Saberiam que sou eu, é claro, mas enterrariam a carcaça podre e preservariam o nariz para servir de estudo nas faculdades. Balançou a cabeça, coçou o nariz, esfregou os olhos. Ia desistir, mas o silêncio lá de fora se transformou em ruídos da meninada brincando de soltar pandorgas. Seria ideal, caso o pão escolhido fosse o envenenado, morrer onde houvesse movimento de pessoas. Mas não poderia ser ali no bairro, não gostava daquela gente e não admitia, durante a agonia, qualquer choro hipócrita ou lamentos de quem não tem outro sentimento maior que a pilhéria. Imaginou um lugar, o mesmo de todos os domingos. Calmamente se vestiu, e, embora estando calor, usou, por cima da camisa, um paletó de bolsos largos. Abandonou os sacos plásticos, jogou vários pedaços de cada pão nos bolsos: no direito, o pão com veneno, no esquerdo, o pão bom. Saiu. No ônibus vazio de domingo, sequer se deixou abalar por arrependimentos, afinal, talvez o pão sorteado fosse o que não tinha veneno. Quando a mata do Parque dos Poderes surgiu em seus olhos, soltou um longo suspiro de alívio sabendo que em pouco tempo tudo estaria decidido. O ar frio do começo do outono o envolveu no exato momento em que se embrenhou na mata até dar num riacho frio que percorria as árvores dos galhos caídos. Sentou-se. Imaginou a vida sem nariz, sem olhos acusatórios por todos os lados. Ah, seria muito bom, mas isso é impossível”. Num profundo lamento, permitiu seu corpo escorregar pelo gramado. Depois girou o corpo e aos poucos espalhou aleatoriamente oito pedaços de pão entre as raízes, numa diferença de dois palmos uma da outra. Suspirou, enxugou o suor da testa e contou trinta passos para trás, abriu os braços e fechou os olhos; ergueu a cabeça para o céu num ritual de despedida e girou o corpo. Pena ser dia: se o destino fosse o fim, queria ver as estrelas pela última vez. Logo 6 abaixo, um grupo de ciclistas poderia ter notado a cena, mas não se deteve. Com a cabeça para cima, o nariz não aparecia e a sua imagem refletia nada mais que um homem feliz rodopiando enquanto contemplava a natureza. Abaixou a cabeça trazendo os detalhes do plano: iria se aproximar 10 passos e fechar os olhos; girar o corpo e ir a um único ponto; apanharia o pão escolhido com os olhos para cima, para não identificar a cor. Cairia de joelhos, comeria sofregamente e depois se deitaria aguardando o resultado escolhido pelo destino. O vento escapou da mata e soprou seu rosto no exato momento em que resolveu caminhar, dois passos, três, cinco... Se deteve ante o movimento inesperado vindo de dentro do mato; um bicho escapou indo de encontro aos pães. – Um gambá!...– ele disse num resto de voz e depois sorriu. Esfregou os olhos, sentiu sede, mas manteve o corpo imóvel, aguardando uma direção do destino. E como o bicho não tombou, era a certeza que tinha comido o pão bom. Aproximouse calmamente enquanto o bicho comia outro pedaço do pão, sem nada sentir. Era outro pedaço sem veneno. Chegou mais perto, o bicho não se incomodou. Ele então apanhou do bolso esquerdo um resto de pão sem veneno e deu direto da sua mão para a boca do animal. Para sua completa surpresa, o bicho subiu em suas costas e acariciou-lhe o rosto, inclusive o nariz. Talvez fosse um anjo, pensou. Apanhou mais pedaços de pão sem veneno e deu ao novo amigo. O bicho comeu sem sair do lugar, prosseguindo a passear pelos ombros como se fosse um animal de estimação apegado. Os pássaros que voavam por perto registraram a cena do homem sorrindo e beijando um gambá como um pai beija o filho. E no instante seguinte, o grupo de ciclistas foi o primeiro a se deter diante da imagem surreal de um homem carregando nos ombros um gambá. Ele prosseguiu num caminhar confiante, abrindo espaço em meio à multidão, sem se incomodar com as exclamações, os gritos de surpresa que diziam: “Olhem, é um gambá!”, aberto no rosto redondo o triunfal sorriso, efeito da inesperada liberdade. 7 Dormiu um sono sincero, daqueles de sonhos bons. Ao acordar, imaginou a tragédia de um pesadelo real. Nem sinal do gambá. Antes do desespero, ouviu um barulho embaixo da cama, o mesmo de quando viu o gambá saindo do mato. Não pensou duas vezes ao esticar o braço e de lá trazer até os ombros seu admirável e inseparável amigo. No trajeto para o trabalho, apenas sorrisos a cada exclamação, “Vejam, um gambá”, o peito erguido, as mãos acenando às pessoas num modo de triunfo. Ao entrar na repartição, batia um coração acelerado, mas feliz. Todos olharam para eles ao mesmo tempo, alguns se aproximavam na intenção de ter certeza, outros, mais ousados, ameaçaram encostar as mãos no gambá, mas, como todo cuidadoso dono de bicho, Carvalho advertia: deixe o bichinho em paz, que mal nenhum ele lhe faz. Foi como se não existisse mais o imenso nariz, nenhum riso escondido, nenhum comentário maldoso, apenas a surpresa: “olhem, é um gambá!”. As semanas se passaram no mesmo ritmo. Era como se Carvalho tivesse arrancado, de uma só vez, um câncer e a solidão. Seguro de si, convidou Márcia para jantar. Ela aceitou, de olhos úmidos e pintinha brilhando no canto da boca. No restaurante, tentaram impedir a entrada do gambá, mas o casal protestou de forma tão firme que não restaram objeções, nem mesmo das pessoas nas outras mesas: “Olhem, é um gambá!”. À noite, na cama, Márcia completamente nua, sem reclamar da ação de Carvalho, que a cheirava, cheirava mais, com gosto e sofreguidão, enquanto, num canto do quarto, o gambá roía mais um pedaço de pão bom. Os domingos de solidão deram lugar a um homem completamente feliz, passeando ao lado de uma mulher amada - tão atraente no seu caminhar rebolante, os olhos úmidos, a pintinha na boca brilhante de paixão - cheirando todo ar que lhe cabe nos pulmões, sem se importar com o nome das plantas – um gambá passeando sobre seus 8 ombros – enquanto joga flores no lago e dá de comer aos pombos do parque pedaços de pão sem veneno.


André Alvez

 
 
 

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