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Conto - O homem que não sabia curitibanês, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 6 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor, João Francisco Santos da Silva, com "O homem que não sabia curintibanês.


O homem que não sabia curitibanês



Você sabe com quem está falando? Se não sabe, procure saber.


— Como vai o meu português João? Não tenho mais quase oportunidade de falar com brasileiros. Estou enferrujando e já esqueci muita coisa.

— Pedro seu português está ótimo! Nem parece que faz quase quarenta anos que você voltou para o Chile.

— E sua mãe está bem? Fale para ela que eu nunca vou me esquecer do jantar na sua casa. Seus pais foram das poucas pessoas que me convidaram para ir em casa. Lembra disso João?

— Claro que lembro. Parece que foi ontem. Eu falei em casa que tinha um colega chileno recém chegado à cidade e que ele estava com dificuldade para se adaptar a faculdade e a vida em Curitiba. Acho que eles ficaram curiosos para e conhecer.

— Você parecia meio envergonhado em me chamar para sua casa. Disse que foi sua mãe quem mandou me chamar. E você ainda enfatizou que sua casa era muito simples, mas que eu iria gostar do pão com vina que sua mãe fazia. Você não imagina como eu fiquei feliz com o convite. Queria agradecer, mas em português ainda me faltavam as palavras.

— Pois é Pedro, e você me deu o cano. Até hoje minha mãe não sabe porque você não apareceu para comer o pão com vina na primeira vez que eu lhe chamei. Todos lá em casa lhe esperando e você nada de chegar. Meu pai ainda disse que não se convida alguém para vir em casa comer pão com vina. No mínimo tinha que ser um jantar ou um almoço de domingo.

— Puxa João, naquela época eu não sabia falar quase nada em português. Ainda me lembro que andava com um dicionário Espanhol-Português na mochila. Tinha a ilusão de que ele me ajudaria. Era difícil de entender o que você falava.

— Não imaginava que tinha sido por isso. Desculpe, mas para mim parecia que as informações estavam bem simples e de fácil entendimento. E o bilhete com o endereço? Você também não conseguiu entendê-lo?

— A maioria das palavras que você escreveu não existiam no dicionário ou a tradução não fazia o menor sentido. Na verdade, não fui porque fiquei com vergonha de perguntar tantas coisas que não sabia.

— Minha letra também não era das melhores. Devo tê-lo escrito rápido, daí nem eu mesmo entenderia o que escrevi.

— Não! Não foi isso! Sua letra eu consegui entender. O problema é que eu levei quase seis meses para descobrir que canaleta é como curitibano chama a via expressa do ônibus. Alimentador não tem nada que ver com comida, é um ônibus de bairro que leva passageiros para um terminal onde há conexão com outras linhas de ônibus. Por falar em ônibus, ligeirinho é o apelido de um ônibus que vai mais rápido porque faz poucas paradas. Em Curitiba há pontos de ônibus com o formato de tubos. Colorama era o nome de uma loja de produtos fotográficos, que só quem morava perto dela, no caso você, saberia do que se tratava. Uberlândia não é a cidade mineira e sim uma vila que fica no bairro do Portão.

— Agora vendo pela sua perspectiva, até parece que fiz por sacanagem. Mas juro que não foi minha intenção.

— Eu sei que não foi culpa sua. Mas seu bilhete não me ajudou muito. Lamentei ter perdido o cachorro quente, ou melhor, o pão com vina preparado por sua mãe.

— Ainda bem que da outra vez nós fomos juntos para casa. Aí você experimentou a lasanha que meu pai preparou. Ele gostava de cozinhar.

— Sim, uma lasanha deliciosa. E você sabe que guardei por muitos anos o bilhete com as orientações de como chegar em sua casa? Ele acabou servindo como uma espécie de lembrete motivacional. Nos momentos que eu desejava desistir de tudo e voltar para o Chile, abria o seu bilhete e ele me desafiava a resistir. Não perderia mais nenhum pão com vina com amigos por não saber “curitibanês”.


Como chegar em minha casa:

“Pedro. Você pega o ligeirinho do Capão Raso sentido centro. Lembre-se que é no tubo que fica do lado direito da canaleta. Porque se você pegar no lado esquerdo vai parar lá no Pinheirinho. Você desce no terminal do Portão e pega o alimentador do Uberlândia. Pede para o cobrador que você quer descer no primeiro ponto depois do Colorama. Minha casa é na primeira esquina dobrando à direita. Bem em frente dela tem um campinho e a piazada está sempre lá batendo bola. Não tem erro”.

 
 
 

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