Conto - O enterro do encantado, por João Francisco Santos da Silva


Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O enterro encantado".
O enterro do Encantado
Os passos saíam vagarosos e pesados, agarrados pela areia fofa e úmida. A lentidão, vista de longe, parecia um rastro de formigas parado na praia. De perto, percebia-se o lento movimento dos corpos. A procissão seguia acompanhada, em sua dificuldade, por distintos sons: o arfar de respirações contidas, mesclado com a batida das ondas e o sopro do mar, ditava o ritmo de seus sofrimentos. Se pudessem, todos retrocederiam: o vento para o horizonte, a onda para o mar, a respiração devolvida à traqueia. A fila daria meia-volta para suas casas. Menos um deles, o Encantado, o responsável por aquele encontro. Esse seguiria pela praia por mais meia légua até chegar ao seu destino.
Jeremias possuía sorriso de boto. Era bom violeiro, de voz suave e sedutora. Mariana, a Encantada, encantou-se por ele e o encantou. Naquela noite de amor dos encantados, a ilha ficou acordada, atenta ao dedilhar da viola e ao canto da sereia. Amor impossível. Jeremias mexeu com a mulher errada, do tipo que pertence a outro. Se o rival fosse apenas um pescador, teriam se resolvido na peixeira; no entanto, essa era uma disputa de amor insolúvel. Não se pode disputar com o Senhor da ilha. Jeremias apaixonou-se e esqueceu a ordem natural das coisas. Ao amanhecer, Mariana desapareceu. Submissa, ela voltou para o mar. Quanto ao pescador, a tristeza encarregou-se de entregá-lo ao rival. Jeremias não acreditava em sereias; o Senhor da ilha, sim.
No início da jornada, todos riam e contavam piadas. Blefavam entre si, disfarçando a ansiedade de cumprir o destino de Jeremias. À medida que o grupo avançava, o caixão, carregado a quatro mãos, tornava-se mais e mais pesado. Os pescadores precisavam se revezar. O lusco-fusco foi baixando junto com as vozes, até se fazer uma penumbra muda. Nesse silêncio de vozes humanas, escutava-se um brado desafiador trazido pelo vento:
— Vocês vão mesmo arriscar suas vidas por um Encantado?
Semana de lua gorda. Promessa de maré cheia. A água batia pelas canelas e os advertia do que o Senhor queria. Ele não se importava se, para isso, precisasse levar junto com o Encantado toda a sua comitiva. Castigo de amor é vingança da qual não se escapa. Dentro da noite, vista do horizonte, a trilha de formigas transformara-se em uma serpente de diminutas luzes rastejando pela praia. Todos iam com a água nos joelhos. Enfim, chegaram ao destino: um cemitério recuado cerca de dez metros da praia.
Havia ali um buraco de dois metros de profundidade, já com água pela metade. Soltaram o caixão na cova inundada. O Senhor da ilha estava impaciente pelo encontro. Entre uma e outra onda, jogavam pás de areia. Esforço inútil. A cada pá lançada, o mar vinha e lavava a cova. A água subia rápido. Naquela noite, com a água pela cintura, os pescadores teriam sorte se conseguissem voltar pela praia submersa.
Eles fizeram o que puderam. Largaram as pás e correram. Fugiram sem olhar para trás. Não queriam ver Jeremias ser arrancado de seu caixão e testemunhar o mar executar sua própria vingança.
Não se mexe com uma Encantada. Parece mulher, mas é sereia. Nenhum mortal a terá.





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