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Artigo - O futebol é a metáfora da vida e muita música, por Rogério Zanetti

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 1 hora
6 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de artigo com o jornalista, escritor e poeta de Campo Grande (MS), Rogério Zanetti, com "O futebol é a metáfora da vida e muita música".


O FUTEBOL É A METÁFORA DA VIDA E MUITA MÚSICA


“Oh, bola na trave não altera o placar

Bola na área sem ninguém pra cabecear

Bola na rede pra fazer o gol

Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?”


Por Rogério Alexandre Zanetti


Todo mundo se lembra dos jogos épicos da seleção da Inglaterra durante a Copa do Mundo deste ano. Ao final dos jogos, os jogadores e torcida cantavam juntos a bela canção Wonderwal, da banda Oasis. Na verdade, o canto das torcidas, trazendo grandes e conhecidas canções é comum na Europa, e encanta a quem goste ou não do jogo de bola.

E a música acompanha há tempos o esporte. Funciona assim, a bola ainda não rolou, mas o estádio já canta. Há uma bateria marcando o compasso, milhares de vozes repetindo um refrão e corações acelerados pela promessa de alguma coisa extraordinária. Antes mesmo do primeiro passe, futebol e música já estão em campo e ambos trabalham com expectativa, memória e emoção. Ambos são capazes de fazer um desconhecido abraçar outro como se fossem amigos de infância.


Talvez seja por isso que o futebol explique tão bem a vida. Nem sempre vence quem parece mais preparado, e nem sempre o esforço encontra recompensa imediata. Há dias em que tudo funciona até o último toque, justamente aquele que manda a bola para fora. Em outros, uma oportunidade improvável muda o destino de uma partida inteira. Como acontece conosco, o jogo exige preparação, mas conserva uma margem de imprevisibilidade que nenhum planejamento consegue eliminar.

E, felizmente, há o improviso. Aquela resposta que o corpo encontra antes que a cabeça consiga explicá-la. No futebol, chamamos de drible. Na música, pode ser uma variação, uma síncope, uma nota que chega onde não era esperada. Na vida, muitas vezes, é apenas a maneira de seguir adiante.


O corpo disputa, a ginga inventa

O futebol é um esporte de contato físico, que exige força, resistência, velocidade e equilíbrio para suportar a marcação, proteger a bola e disputar espaço. Mas a força, sozinha, não explica o jogo. Se explicasse, bastaria escalar os mais robustos e entregar a taça antes do apito inicial.


O talento aparece também na administração do tempo, no jogador diminui a passada, desloca o peso do corpo, sugere uma direção e escolhe outra. O marcador reage ao

movimento anunciado e descobre, um instante depois, que a bola seguiu por outro caminho e o drible é uma pequena negociação com o desequilíbrio alheio.


É aí que entra o gingado. Joelhos flexionados, quadris em movimento, mudanças de apoio e uma relação muito particular entre pausa e aceleração. Há algo de musical nessa maneira de jogar, no qual o craque percebe o ritmo da partida e sabe quando acompanhá-lo ou interrompê-lo. Já houve cientista que afirma que o que diferencia um craque do jogador comum é dois ou três segundos, aquela fração de tempo no qual o fora de série pensa e age com mais rapidez que seu marcador.


No Brasil, essa imagem conversa com tradições como o samba e a capoeira, nas quais equilíbrio, malícia e invenção corporal ocupam lugar central. Não significa que todo brasileiro nasça sabendo driblar, muito menos que o futebol tenha uma única identidade. Significa reconhecer uma afinidade cultural, e aprendemos a admirar quem transforma dificuldade em movimento bonito.


Garrincha fazia da repetição uma surpresa. Pelé combinava potência, inteligência e precisão. Ronaldinho Gaúcho parecia encontrar um intervalo de alegria onde os adversários enxergavam apenas congestionamento. Cada qual com sua assinatura, como músicos que podem tocar o mesmo instrumento sem produzir o mesmo som.

Quando o Brasil colocou a bola na canção


Poucos compositores aproximaram tanto o balanço da música e o movimento do futebol quanto Jorge Ben Jor. Em “Fio Maravilha”, a jogada ganha a dimensão de um acontecimento que merece sobreviver ao placar. Em “Camisa 10 da Gávea”, a homenagem a Zico transforma a admiração pelo craque em canção. São exemplos de uma obra em que a paixão pela bola aparece com frequência.


Já “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, do álbum África Brasil, de 1976, aproxima a figura do jogador de um balanço irresistível. A música tem impulso, deslocamento e insistência. Ouvindo-a, quase se pode imaginar o atacante pedindo passagem entre os defensores. É futebol que também se percebe pelo corpo.


Chico Buarque tomou outro caminho em “O Futebol”, de 1989. Aproximou o lance da criação artística, reconhecendo na invenção do jogador uma beleza que desafia até quem trabalha com palavras, imagens e melodias. Há jogadas que parecem prontas para a eternidade, embora tenham existido apenas durante alguns segundos.

O rock brasileiro também entrou nessa partida. “É uma Partida de Futebol”, parceria de Samuel Rosa e Nando Reis gravada pelo Skank, reúne a paixão pelo time, os personagens do campo e a emoção da arquibancada. A ligação ultrapassou o tema da letra e a faixa integrou um álbum comemorativo da Copa de 1998 e também o CD Euro 2008, lançado em Portugal.


A canção oferece uma espécie de retrato afetivo do torcedor. A camisa, a bandeira e o distintivo carregam histórias que não cabem nos noventa minutos. Torcer é guardar

lembranças de pessoas, lugares e domingos que continuam vivos cada vez que o time entra em campo.

O rock internacional ganhou as arquibancadas

Algumas músicas falam diretamente de futebol. Outras foram adotadas pelas torcidas e passaram a fazer parte do esporte, mesmo tendo nascido com outro destino. É o caso de “Seven Nation Army”, do The White Stripes, com seu famoso desenho de guitarra ganhou vida própria nas arquibancadas, convertido em um canto que dispensa palavras. A melodia atravessou fronteiras porque oferece algo precioso para uma multidão, em um motivo simples, forte e fácil de cantar em conjunto.


Com o Queen, a relação é igualmente poderosa. “We Will Rock You” transforma pés e palmas em instrumentos; “We Are the Champions” dá voz ao sentimento de quem atravessou dificuldades e chegou à vitória. A própria banda reconhece a incorporação desta última por torcedores em arenas esportivas de todo o mundo. Não é preciso entender inglês para perceber o tamanho daquela celebração.


Há uma história especialmente bonita nessa ligação. Segundo o relato publicado pelo Queen, uma plateia cantando “You’ll Never Walk Alone”, depois de um show em 1977, ajudou a inspirar a criação de uma música que convidasse todos a cantar juntos: “We Are the Champions”. O futebol alimentava o rock, que depois devolveria às arquibancadas um de seus grandes hinos de vitória.


E justamente “You’ll Never Walk Alone” merece um lugar próprio nessa conversa. Nascida no musical Carousel, de Rodgers e Hammerstein, ganhou em 1963 a gravação de Gerry and the Pacemakers e foi incorporada pela torcida do Liverpool. Sua mensagem de companhia e esperança tornou-se inseparável da identidade do clube.

Em tradução livre, o título diz: “Você nunca caminhará sozinho”. Poucas ideias servem tão bem ao futebol — e fazem tanta falta fora dele. Não há uma única partida do maior time da cidade natal dos Beatles no qual o time só entra em campo após a torcida, em extase, entoar os belos versos dessa canção.


Na relação entre futebol e música, poucas cenas são tão expressivas quanto a torcida da Roma cantando “Roma, Roma, Roma” no Estádio Olímpico, na capital italiana. Ali, milhares de vozes transformam a canção interpretada por Antonello Venditti em uma declaração coletiva de pertencimento. Apresentado pela primeira vez no estádio em dezembro de 1974, o hino tornou-se parte do ritual que antecede os jogos do clube em casa, aproximando gerações pela mesma paixão. Enquanto a bola ainda espera pelo primeiro toque, a arquibancada já oferece seu espetáculo, com o nome do time repetido como uma promessa, reúne lembranças, esperanças e a fidelidade que resiste aos resultados. Ali, a música dá voz ao que uma tabela de classificação jamais conseguiria explicar, a de que ser romanista é carregar um vínculo com o clube e com a cidade, uma herança afetiva que passa de pais para filhos e encontra naquele coro sua expressão mais poderosa. Antes de disputar a vitória, a torcida reafirma por que continua voltando.


A vida também precisa de uma boa tabela

Dentro de campo, o jogador aprende que nem toda bola deve ser carregada sozinho. Às vezes, o passe é a decisão mais inteligente, no qual é preciso confiar em quem está ao lado, reconhecer o espaço do outro e aceitar que uma grande jogada pode começar com um gesto discreto.


Uma banda conhece essa exigência. O baterista sustenta, o baixo organiza, a guitarra abre caminhos, a voz conduz. Quando todos tentam fazer o solo ao mesmo tempo, a música perde o rumo. No futebol, também.


Isso não elimina o brilho individual. Apenas mostra que o talento encontra mais possibilidades quando tem com quem dialogar. Um passe bem colocado pode ser tão generoso quanto uma escuta atenta. Uma tabela bem-feita tem alguma coisa de conversa entre pessoas que se compreendem.


Talvez a grandeza do futebol esteja justamente nessa convivência entre disciplina e liberdade, choque e delicadeza, esforço e inspiração. É preciso disputar a bola, mas também saber tratá-la. É preciso perseguir a vitória sem perder a capacidade de reconhecer a beleza do jogo.

A música acompanha tudo isso porque sabe lidar com o que o placar não registra, como a ansiedade antes do começo, a esperança depois do erro, a saudade de quem nos ensinou a torcer.


Quando a bola encontra a rede, o grito rompe qualquer compasso. Por um instante, ninguém precisa explicar nada. A alegria já encontrou sua voz. E, quando o gol não vem, ainda há alguém cantando na arquibancada. Talvez esteja aí a mais humana das lições, a vida nem sempre nos entrega a vitória, mas continua pedindo que entremos em campo.

 
 
 

1 comentário

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Venicio
há 3 minutos
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Magnífico texto, lembranças boas.

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