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Conto - Mulheres, tempos e salmão, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 11 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Mulheres, tempos e salmão".


Mulheres, tempos e salmão


O arroto saiu sem esperar. Mesmo sozinha na copa, tomando seu café da manhã, sentiu-se constrangida. Será que as outras duas escutaram? Em plena segunda-feira, o gosto da tilápia, misturado com o hálito azedo do vinho de sábado, ainda persistia como lembrança. Vestígios de uma noite inesquecível, em vários sentidos.

Irene não gostava de buscar pessoas por meio de anúncios. Embora existam sites especializados e uma série de canais com essa finalidade, ainda assim lhe parecia algo impessoal. Quinze anos não são quinze dias. Há pessoas insubstituíveis e Adelaide era uma delas. Não foi fácil para Adelaide tomar a decisão de sair de casa. Há tempos que nutria a vontade de voltar para a sua terra. Sem ela as noites de sábado ficariam um pouco mais vazias.

Não costumava mentir e quase tudo que falou era verdade. O que deixou de falar é que lhe afligia. Depois de um tempo, se tivesse oportunidade, poderia mostrar-lhe outras qualidades. Pensando assim, ela tentava convencer a si mesma que se sairia bem no jantar. Difícil começar qualquer tipo de relação omitindo a verdade. Tinha seus motivos. Sábado à noite seria sua prova de fogo. Amanhã será sábado, tempo mais que suficiente para preparar-se.

Com a saída de Adelaide, rompia-se o último elo entre Inês e Irene. Inês brincava que só vivia com Irene por causa do salmão grelhado com crostas de gergelim e do Pinot grigio branco servido na temperatura certa. Não, Inês nunca foi uma mulher exigente. Não exigia e também não permitia que lhe exigissem nada. Já se iam dois meses desde que conversaram pela última vez. Inês falou sério:

— Preciso ir embora. Não é por tua causa. Eu continuo te amando. Mas nesse momento quero andar sozinha. Preciso de algum tempo longe daqui.

Irene permaneceu calada. Não lhe pediu para ficar. Sabia que nada que dissesse a faria mudar de ideia. Inês partiu levando o seu tempo e deixando uma pequena esperança:

— Irene! Diz para Adelaide continuar fazendo aquele salmão que eu adoro e que só ela sabe o tempo de forno para deixá-lo crocante. Num sábado qualquer, eu volto aqui para o nosso jantar especial.

— Puxa, como o tempo voou! Parece que foi ontem! Já faz mais de 15 anos que eu conheci a senhora e a dona Inês. Por onde será que ela anda? Vocês nunca mais se falaram? - disse Adelaide, inventando conversa e fazendo rodeios para dar a notícia que a patroa já sabia qual seria.

Irene só podia desejar boa sorte para Adelaide. Descanso merecido. Ela já estava velha e nada mais justo que voltar para perto da família que lhe restava no Ceará. Sem saber o que dizer, Irene falou qualquer coisa:

— Vou sentir falta da sua comida, Adelaide.

Se abraçaram e choraram juntas. Nessas horas, o silêncio soa melhor que falar qualquer coisa, apenas por falar.

Desempregada há dois meses, Jucilene não tinha mais tempo para esperar. As dívidas e contas atrasadas não esperavam. Ela queria uma oportunidade. Precisava trabalhar e ganhar um pouco de dinheiro. Não mentiu quando disse que sabia cozinhar todo tipo de peixe. Só achou desnecessário informar que não conhecia salmão e muito menos gergelim.

Irene não botou fé nas habilidades culinárias de Jucilene. Porém a simpatia da moça foi suficiente para lhe dar uma chance. O teste ficou marcado para sábado à noite: preparar um salmão grelhado com gergelim. Há dois meses que para Irene os sábados demoravam em chegar. E como chegavam iam embora. Mas durante o tempo que durava o jantar, em cada garfada de salmão, em cada gole do Pinot grigio branco, mesmo sem brindes, a esperança se mantinha.

Depois do que ocorreu no sábado à noite, Jucilene desconfiava que não voltaria para o trabalho na segunda-feira. O peixe ficou saboroso, não devia haver muita diferença entre tilápia e salmão, e entre gergelim e farinha de rosca. O problema foi ela ter aberto a porta e deixado uma pessoa estranha entrar no apartamento da ex futura patroa. Depois dizem que pobre é que chega na hora do jantar atraído pelo cheiro da comida.

O tempo passou diferente para Jucilene, como demorou para chegar o domingo e receber a mensagem de Irene. Mas hoje, segunda-feira, ali na cozinha preparando o café da manhã, ela sente como se trabalhasse com Irene e Inês há vários anos. Até já sabe que Irene toma café da manhã mais cedo, sentada à mesa da copa, enquanto Inês prefere o café servido na cama.

 
 
 

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