Conto - Mentiras bentas, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- há 2 horas
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Mentiras bentas".
Mentiras bentas
(Quando os homens não atrapalham)
Dona Áurea, a proprietária do estabelecimento, não incomodava a vizinhança. Discreta, quase nunca era vista na rua. No dia em que bateu à porta de dona Maria, a vizinha sabia que o assunto devia ser importante:
— Dona Maria, se não fosse coisa séria, não lhe pediria esse favor. O anjinho, coitado, tá igual a uma corda de violão esticada. É filho de uma funcionária. Ela lava e passa as roupas das minhas meninas. A criança nasceu em casa. A senhora sabe como é... Difícil pra gente como nós entrar no hospital. Não quis assustar a mãe, mas o menino chora noite e dia. Só do barulho do vento se contrai todo. Os bracinhos são dois gravetinhos. Ele tá sofrendo tanto. A mãe quer que o batizem. Eu também não posso entrar na igreja. Sua filha é tão esperta, será que ela pode ser madrinha da criança? O padrinho dá pra ser meu filho mesmo. Ele tem só 14 anos e é meio bobão, mas sua filha fala pelos dois.
Dona Maria sabia que, na casa de dona Áurea, cada mulher lavava sua própria roupa. Ainda assim, não negaria ajuda a uma mãe aflita com sua criancinha desenganada.
— Não se preocupe, filha, você é ladina e adora mentir. No caminho até a igreja, pensa no que vai inventar pro padre.
— Vocês são tão jovens e já com filho?
— Nós somos os padrinhos!
— E onde estão os pais da criança?
— A mãe complicou depois do parto. Ela tá internada e o marido tá com ela!
— Onde moram os pais da criança?
— Na...
— Onde?
— Na avenida Joca Brandão, 134.
— Qual é o nome da mãe?
— Melissa!
— Melissa do que?
— Pereira.
O padre olhou para o rostinho contraído da criança. Os músculos tensos puxavam os cantos dos lábios para baixo, como num sorriso irônico. Precisou desviar o olhar. Foi
quando viu, afixado num pequeno biombo de madeira que servia de mural para avisos e propaganda, um cartaz. Nele estava escrito: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida…”
Optou por esquecer de onde suspeitava vir a criança e pensou para onde, em breve, ela partiria. Balançou duas ou três vezes o asperssório, lançando algumas gotas de água benta na cabecinha do inocente.
Dois dias depois, Áureo Pereira seguiu seu caminho.





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