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Artigo - “A Saúde de Mato Grosso do Sul era moeda", por Paulo M. Esselin

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 7 horas
  • 4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de artigo com o professor titular aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Paulo M. Esselin, com “A Saúde de Mato Grosso do Sul era moeda de troca em esquema ‘repugnante’ que fraudou R$ 27 milhões na compra de livros”


****Paulo Marcos Esselin

Professor titular aposentado da UFMS


A Saúde Pública há muito tempo se tornou uma das principais fontes de sofrimento e indignação em Mato Grosso do Sul. Denúncias sobre falta de vagas, de leitos hospitalares, de medicamentos e de atendimento transformaram-se, em nosso Estado, numa chaga aberta, difícil de curar. Altamente transmissível, essa dolorosa chaga já atingiu os hospitais públicos e se alastrou para as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e para as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da Capital, que enfrenta um cenário crítico de colapso. A superlotação das UPAs e UBSs, o desabastecimento crônico de insumos e medicamentos e a crise na Santa Casa de Campo Grande — maior polo de alta complexidade e referência em traumas de MS, além de ser o hospital que mais oferece atendimentos pelo SUS — revelam a gravidade desse abandono.

A gravidade do descaso fica ainda mais evidente quando o próprio governo estadual reconhece que, nos quatro primeiros meses do ano, aplicou na Saúde menos do que os 12% mínimos exigidos pela Constituição Federal. ¹

Somado ao descaso e ao desrespeito ao cidadão, há ainda um novo e perverso ingrediente: a corrupção.

A Operação Gutenberg, deflagrada há pouco mais de 20 dias pelo Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado, GAECO, revelou que figuras expressivas da sociedade — empresárias e empresários, médicos e dentistas, servidores públicos, um ex-comissionado da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos, AGESUL, o advogado Gabriel Taquino de Paula, que comanda a empresa “Direita em Foco”, um ex-prefeito e até o coordenador de Regulação de Mato Grosso do Sul, Ed Carlo Britto Burgatt — estariam à frente de uma poderosa quadrilha que desviava recursos da Saúde.² O traço comum entre eles é perturbador: todos pertenciam a círculos sociais, profissionais ou políticos que lhes davam formação, renda, influência e oportunidades. Não eram pessoas empurradas pela miséria ou pela falta de escolha. Eram pessoas que tinham tudo para servir ao interesse público, mas, segundo as investigações, teriam escolhido explorar justamente a dor de quem dependia da Saúde.

Aliás, a permanência do sr. Ed Carlo Britto Burgatt por cerca de onze anos na Coordenação de Regulação da Saúde de Mato Grosso do Sul, atravessando duas

administrações estaduais desde sua nomeação, em 2015, impõe uma pergunta incômoda: como alguém pôde ocupar por tanto tempo um cargo tão sensível, estratégico e decisivo sem que os mecanismos de controle, fiscalização e supervisão tivessem percebido alguma coisa?³ Só nos resta complementar com outra pergunta: esses mesmos instrumentos de fiscalização e controle queriam, propositadamente, não perceber absolutamente nada?

Preso na Operação Gutenberg, o Sr. Ed Carlo é apontado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul como uma das peças centrais do esquema investigado. Segundo o MPMS, ele teria usado o cargo na área da Saúde para pressionar prefeitos a contratar, sem licitação, a Editora Avante, responsável pela venda de livros didáticos — diga-se, inaproveitáveis — aos municípios. Pior ainda: esse esquema de propina vinha sendo investigado desde 2022 e teria continuado em 2023, 2024, 2025 e 2026. Cinco anos!

Conversas interceptadas pelo GAECO evidenciam que os prefeitos eram cooptados por meio de barganha política: ao adquirirem os livros, indicavam quem deveria receber o atendimento necessário traduzido por: acesso a exames, consultas, vagas hospitalares e cirurgias. Ou seja, condicionava-se a liberação de vagas em hospitais à venda de livros pela Editora Avante.

Os diálogos entre os investigados são repugnantes e de extrema vulgaridade, com expressões como “Sangue de Jesus tem poder”; “Deixa todo mundo morrer” e “Em nome de Jesus”, usadas para invocar proteção divina. Enquanto, segundo as investigações, o grupo amealhava recursos ilícitos, em contrapartida, oferecia o descaso com pacientes: “Deixa o povo sem leito lá”. Quantas pessoas essa quadrilha não levou à morte por falta de atendimento? Ao todo, teriam se apropriado de R$ 27 milhões — tudo “em nome de Deus”, segundo eles. A Bíblia foi usada pelo grupo como uma espécie de fortaleza simbólica para cometer crimes.

Mais grave ainda: mensagens colhidas pela força-tarefa do MPMS reforçam a gravidade das acusações. Nelas, foi mencionada a participação de deputados estaduais e autoridades como nomes usados para pressionar prefeitos a aderirem à compra de livros. ² Relatório do GAECO revela ainda mensagens entre Ed Carlo e Gabriel informando sobre o pagamento de R$ 52.217,75 a um certo deputado. ⁴

Diante de tudo isso, fica evidente que a crise da Saúde em Mato Grosso do Sul não pode ser explicada apenas pela falta de recursos para garantir atendimento digno à população. A prova mais cruel é que dinheiro existe — inclusive para sustentar esquemas de corrupção.

Governador Eduardo Riedel: este é um retrato inaceitável de abandono, descontrole e perversão da função pública. A sociedade precisa de respostas, de

punição aos responsáveis e, sobretudo, de um governo que trate a Saúde como direito do cidadão — não como moeda de troca.

O povo aguarda uma explicação, senhor governador: por que a Saúde permanece em segundo plano, enquanto recursos e benefícios nunca faltaram a setores economicamente privilegiados, como o agronegócio, a soja, o boi e a celulose?


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