Conto - Laureano pantaneiro, por Athayde Nery
- Alex Fraga

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Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o advogado, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Athayde Nery, com "Laureano Pantaneiro".
Laureano pantaneiro.
Quando fugiu de Campo Grande para Corumbá, Laureano, lá pelos idos de 1974, tinha uns dezesseis anos, queria porque queria viver no pantanal. Queria ficar longe do padrasto malvado. Mais tempo junto, e fazia uma besteira. Sabia de uns parentes lá em Albuquerque por causa do avô. Foi pra Rodovia pedir carona. Em Terenos subiu na carroceria de uma caminhonete Toyota, que o motorista chamava de “maleita”, porque pulava que nem peão com febre. Sentiu nos ossos o vaticínio. Passou Aquidauana, Miranda, comendo só a matula que tinha feito com frango e farinha de mandioca, que a sua mãe lhe ensinara. Chegava no fim da estrada de chão feita pelo exército brasileiro e ali só se atravessava o Rio Paraguai de Balsa. Laureano quando se deparou com a imensidão do rio Paraguai entrou num estado de deslumbramento permanente que nunca mais conseguiu esquecer o cheiro do rio e o seu olhar de diamante. Laureano se sentiu dentro de um filme do Tarzan que havia assistido no cinema Alhambra. A balsa deslizava comandada pelo Piloto numa cabine mais alta. Ele tinha quepe de Almirante. Era o dono do pedaço. O rio estava baixo, tinha que saber navegar até a outra margem sem pegar num banco de areia ou pedra. Camalotes se proliferavam aos milhares deixando só o espaço da barcaça fluir por entre seus braços verdes. Uma água amarronzada corria pro lado do mar. Redemoinhos tinham feições de furacões para dentro da água. Curimbas sugavam o lodo sobre o líquido abundante. As araras coloriam o céu num griteiro só. Urubus observavam, de asas abertas, os estertores de uma anta picada por jararaca. Tuiuiu aterrissou na margem e bicou o vento. Capivaras de olho arregalado nas matas prontas pra mergulhar. Onça com olhar de fome, na espreita. Jacarés de butuca nas piranhas. O pássaro Cafezinho bailava sobre os camalotes. O barulho do motor apagava outros ruídos. A balsa cortava o rio como canivete cortando o couro. Laureano era um fazedor de laço trançado. Tinha aprendido o ofício quando o avô foi visitar a mãe já bem doente e acabou morrendo. Ficou o ofício e as histórias do avô. Devia servir pra alguma coisa nesse mundão aguado e quente. Um solavanco seco e a balsa atracou na outra margem.





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