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Conto - Epitáfio, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Epitáfio.


Epitáfio


— Aqui está. Veja se assim ficou bom.

A moça pegou o papel, ansiosa para ler o escrito encomendado. O breve texto foi lido com certa demora, como se ela tentasse traduzi-lo de uma língua que desconhecia. Em voz baixa, leu duas vezes até ter certeza que não o havia compreendido.

“Aqui repousa uma mulher que por pouco tempo pode sonhar, foi quando em sua cabeça de criança, podia quase tudo. Mas, naquele tempo em que tudo podia, recebeu quase nada. Seguiu em frente, e devolveu tudo. O que para outros seria quase nada, para ela foi quase tudo. Sobreviveu com quase nada. Até que no final, já não podia mais nada. Por lástima, lhe retiram o quase nada que ainda lhe pertencia. Por ironia, pós morte, lhe restituíram quase nada, que para ela foi quase tudo: sua identidade”.

— Mas cadê a minha tia aqui? Quero dizer. Não se ofenda, o Senhor escreve muito bonito. E sei também que o Senhor está fazendo isso de favor para nós. Mas eu não entendi nada. E com essas palavras acho que minha tia também não iria entender. E como é para colocar na placa, tem que estar escrito pelo menos o que era dela e lhe tiraram. Talvez o Senhor não tenha entendido direito. Então desculpe, mas, vou repetir palavra por palavra tudo que eu disse antes. Vou começar desde o bom dia. Mas, por favor, tenha paciência comigo. A vida da minha tia foi tão simples que não deve ter muita coisa para escrever. Então, vamos lá de novo.

— Eu sei que o Senhor só escreve sobre a vida de pessoas importantes. Mas, o que eu queria pedir, se o Senhor pudesse me fazer um favor. É favor mesmo, porque não tenho como lhe pagar nada. A gente precisa mudar o corpo de uma tia minha de cemitério. Eu quase nem lembrava que ela existia. Já passou o tempo que ela podia ficar lá onde está. E se a gente não lhe tirar de lá, eles vão dar fim nos seus ossos. A gente comprou um túmulo a prestação e como cabe quatro pessoas e, graças a Deus, ele ainda está desocupado, acho que dá para ela ficar por lá também. E são só os ossos, eles estão num saquinho de lixo azul claro. Nem vai ocupar quase espaço. Eu nem imaginava que a gente depois que morre fica mais pequena ainda do que já éramos.

— ...?

— Então, ela coitada não tinha nada. Nem família, porque gente como nós, muito pobre, quando se afasta não se acha mais. Minha mãe agora já está bem velhinha, mas, ela ainda lembra da alegria que essa minha tia teve quando conseguiu escrever o seu nome pela primeira vez. Acho que ela só aprendeu a escrever o nome mesmo. Mas, quando viu

seu nome, Aparecida da Silva, escrito na folha de papel, não cabia em si de tanta felicidade. Disse que agora ela tinha um nome que era só seu.

— ...?

— Eu não conheci minha tia. A mãe é que conta que quando era bem novinha algum bêbado a pegou a força e lhe fez mal. E o pior é que pôs filho nela.

— ...?

— Não, ela nunca criou criança sua.

— ...?

— Não ! Ela queria todos. Até o primeiro que foi feito forçado. Com treze anos. Nessa idade não dá para ficar sozinha em casa. Os homens não respeitam. Foi forçada. Sofreu por esse primeiro e pelos outros sete. A primeira barriga deve ter estragado as outras. Se considerar as vezes que minha tia teve sangramento, minha mãe acha que ela deve ter perdido uns 8 filhos. Imagino o sofrimento dela. Assim como recebia, devolvia. Não era para ela ter filhos nessa vida.

— ...?

— Bom, homens ela teve alguns. Mulheres também, mas, não sei se conta? Iam e viam. Minha mãe nem sabe o nome de nenhum deles ou delas. Acho que minha tia estava mais preocupada em seguir sua vidinha. Vidinha é modo de falar. Depois dos 10 ou 12 anos a gente para de pensar besteira. E os planos para a vida terminam. Aí seguimos a nossa vidinha. Não deve ser assim com todo mundo. Com certeza não deve ser assim com o Senhor que estuda e escreve. Falei por mim, pela minha mãe e pela minha tia. Mas, vidinha não é tão ruim, só não é tão boa quanto queríamos que fosse.

— ...?

— Se o Senhor pudesse escrever algum elogio para ela. Mulher honesta, trabalhadora, coisas desse tipo. Não precisa inventar nada, o Senhor pode acreditar que é tudo verdade. A coitada não teve muita sorte na vida. Minha mãe não tem certeza, mas acha que ela pegou uma mancha no pulmão na época em que fazia faxina no frigorifico. Passava frio o dia inteiro no trabalho, e depois passava calor à noite no barraco.

— ...?

— Não. Ela não tinha nada. O barraco era alugado. Estava juntando dinheiro para dar de entrada num barraco um pouco melhor. Ela queria um que pudesse ao menos deixar a porta fechada com chave. O Senhor acredita que se não tiver chave, você sai e quando volta levaram tudo embora. Depois que morreu a gente descobriu que ela tinha uma poupança no banco.

— ...?

— Não, a gente não estava querendo nada. O papel da poupança foi achado sem querer. Foi quando esvaziaram o barraco. Acho que tinha só alguns centavos. Uma pena! Os vizinhos achavam que ela perdeu as economias naquela vez que confiscaram a poupança de todo mundo. Devia ter mais de um salário. Pouco dinheiro para dar de entrada num barraco com porta e chave. Talvez desse para ela comprar um ventilador e colocar uma fechadura com chave na porta velha. Aí ela poderia dormir melhor. Mas, perdeu tudo.

— ...?

— Depois disso, coitada da minha tia, não tinha quase mais nada para perder. Só o resto de saúde que não durou muito mais. Mulher judiada pela vida. Dizem que nos últimos tempos ia cada vez mais ao posto de saúde. Eu não sei. Minha mãe também não sabe. Ninguém sabe de verdade o que ela tinha. Nem mesmo os médicos e enfermeiros. Demora muito para conseguir consultar e fazer exames. Ela ia só para pegar uns remédios na farmácia do posto de saúde. Minha mãe, ela ainda acha que foi a mancha no pulmão, de quando minha tia trabalhava no frigorífico. Eu penso que o útero arruinou e criou algum tipo de tumor depois de perder tantos filhos. Também, tem um vizinho de barraco que jurou que ela morreu por culpa dos médicos. Ele disse que ela sempre ia consultar no posto e apenas lhe passavam dipirona. A gente só ficou sabendo que ela havia morrido mais de dois meses depois. Passamos no barraco lá na Marisqueira ... ah, lembrei! Foi nesse dia que eu vi os papeis da poupança dela. Uma pena mesmo. Só havia uns centavos.

— ...?

— Mas o que eu queria dizer, era que o vizinho disse que ela morreu dentro do posto de saúde. Isso depois de ficar mais de dois dias tomando soro e aguardando uma vaga para ser transferida para algum hospital. Minha mãe que quase nunca chora, chorou. Não sei se foi verdade ou o vizinho tentando consolar minha mãe falou uma coisa que mexeu com a gente. Ele disse que a minha tia, certa vez, chegando no barraco depois de haver ficado um tempo em observação no posto de saúde estava até sorridente. Minha tia então disse que havia recuperado algo que lhe pertencia. A enfermeira do posto lhe chamou pelo nome. Dona Aparecida da Silva. Que nome bonito a senhora tem. Somos xarás. Foi isso que o vizinho disse, que a minha tia disse, que a enfermeira lhe havia dito.

Desculpe se a história é longa e meio confusa, mas, é importante eu lhe contar tudo que eu sei ou pelo menos que me contaram sobre a minha tia. Não quero tomar mais o seu tempo.

— ...?

— Então, como ia lhe dizendo, minha tia foi enterrada como indigente, numa cova identificada somente por um número. Não tinha nem o nome dela. Logo o nome que era a última coisa que lhe restava de seu. Será que o Senhor pode devolver o nome para ela? O nome já era dela, mas não lhe deixaram levar para o cemitério. O Senhor entendeu qual é o nosso problema? Esqueci como chama aquela placa que vai em cima do túmulo. A gente tem uma dessas placas que veio de brinde com a compra do lugar no cemitério. Acho que dá para escrever alguma coisa nela. É uma placa pequena, não dá para pôr muita história. Mas deve dar para escrever tudo. A vida da minha tia não teve muita variedade de coisas para se contar. O importante é que esteja escrito o nome dela com todas as letras. Dizem que daqui a gente não leva nada. Mas acho que faz bem para alma poder levar o nome junto. Senão, depois quem vai se lembrar da gente?

— E agora? O que acha desse?

“Aqui repousa, merecidamente, após uma vida com muitas lutas e sofrimentos, APARECIDA DA SILVA. Que seu nome seja para sempre lembrado”.

— Não ficou tão bonita quanto a primeira que o Senhor escreveu. Ficou curta, simples e meio sem graça. Não tinha muita coisa mesmo para escrever. De interessante só mesmo o nome dela. Que bom que o senhor me entendeu. Muito obrigado!

 
 
 

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