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Conto - Olhos de sanpaku, por André Luiz Alvez

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 18 de abr.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 19 de abr.

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o escritor de Campo Grande (MS), André Luiz Alvez, com Olhos de sanpaku.



Olhos de sanpaku


De repente, o céu foi subitamente tomado por nuvens escuras. Senti o recorrente calafrio e tentei me aquietar, o corpo nu escorado na parede, as mãos trêmulas segurando a cabeça presa aos joelhos. O sentimento vazio de um filme que acaba e ninguém entendeu o final. Pouco antes do estrondo do trovão, o relâmpago revelou o quintal como se fosse dia claro.

Ele estava novamente me esperando abaixo da chuva, Mesmo de longe, pelos vãos da janela do meu quarto, certamente percebeu que eu tinha os olhos iguais aos seus.

Desci as escadas no caminhar pesaroso dos ansiosos.

Cheguei bem perto dessa vez: tinha os olhos de sanpaku e as gotas da chuva entravam nas três partes brancas que saltavam de seus olhos. Frente a frente, o descontrole, o não saber agir, castigados pelo frio fazendo a fadiga ao respirar, a ofegância misturada ao uivo do vento e o barulho de passos apressados de gente na rua procurando abrigo, tomados pelo medo da tempestade, sem nos enxergar.

Quando a vista se acostumou de vez com a escuridão, o enxerguei melhor: um homem encantador. Mas talvez fosse um bicho parecido com um garfo retorcido, olho torto, braços de gafanhoto. Há muito tempo passeou diante dos olhos meus, em meio a chuva torrente, e eu o desdenhei. Só agora, que a tormenta aumentou e o céu ficou sem luz, o percebi por completo, e uma constatação que finalmente me fez sorrir: tal qual a lua, ele nunca envelheceu.

Quase nada sei sobre as suas mãos, no entanto, o arrepio provocado pela sua barba rala e quase grisalha roçando o meu rosto, não me deu chances para escapes.

Ele vinha quando março ameaçava terminar, junto com a chuva e tinha olhos sanpaku, é tudo o que sei.

Das outras vezes, nada fiz, fiquei preso no meu quarto, sem conseguir reunir coragem, mesmo sabendo que ele me chamava no seu jeito silencioso dançando com os pingos da chuva.

Quando partia, levava consigo o cheiro do paletó molhado e o barulho dos sapatos amassando a poça de água da chuva na calçada. Antes da esquina, se virava e seus olhos sanpaku me procuravam numa espécie de adeus. Nunca combinamos nada, mas eu ansiava por outro momento de chuva e permitia que ficasse grudado em mim o cheiro de pouco antes, prelúdio do beijo quente, o arrastar do portão, entre a árvore e o muro, a calçada por testemunha, os beijos, ah os beijos, tão quentes... Primeiro no pescoço (arrepios) depois nos lábios, língua nos meus dentes (saliva de vinho). E nessa noite reuni corarem, desci,

fiquei de frente a ele e seus olhos enormes de brasas. A água deixou nossos corpos gélidos, mas o desejo de fogo logo se sobrepôs, as mãos trêmulas, tatos sem vestígios, a mão forte tapando a minha boca e então ele me penetrou, forte, forte, sem parar, e eu sabia que seus olhos de sanpaku, naquele delirante instante, ardiam na minha nuca e os meus gemidos eram o combustível perfeito para que acelerasse. Tinha pressa, movido pelo medo que o vento se movesse rápido e levasse embora as nuvens da chuva. Quando jorrou em mim sua paixão quente, parou de apertar meu pescoço, afrouxou, fez um carinho nos meus cabelos molhados. Olhou bem fundo no meu rosto e seus olhos de sanpaku pareciam falar frases desconexas, mas pude perceber, eram palavras de amor e contentamento. Ele então olhou para o céu e seu rosto acompanhou o vento levando as nuvens embora

Na noite seguinte, o vento assoprou para outro lado e ele não veio. Fiquei rodeando a rua com o olhar, a perna trêmula, desejos escapando pelos meus poros. A lua se abriu e uma nuvem a tapou quase por completo, restando no céu o desenho perfeito de um par de olhos de sanpaku.

Caminhei até a ponte e a nuvem não saiu de perto da lua. Embaixo o Rio bravio levava a água da chuva que caiu distante. Vi o reflexo da lua na água medonha, feita um olho de sanpaku correndo no rio, sem direção.

Um desejo incontrolável me fez mergulhar e minha cabeça bateu numa pedra no fundo do Rio.

Boiei e o sangue escorreu pela minha gengiva, meu corpo foi descendo pela correnteza gelada, como num sonho, enquanto um bando de pássaros flertava no céu.

Consegui nadar até a margem barrenta e deixei meu corpo deslizar sobre a relva molhada e as folhas das árvores gigantes agiram como se fossem as suas mãos, provocando em mim o prazer prolongado dos dias de chuva, dos olhos de sanpaku presos aos meus. Quando amanheceu, percebi que ele não tinha cheiro, a água da chuva levava embora o suor, a saliva, o líquido quente.

Então postei meu corpo na posição fetal. Visto do alto, me tornei a imagem de um louva-deus, engolido aos poucos pela nuvem da chuva que não caiu.

O reflexo trêmulo na água corrente surgiu novamente, a imagem que eu bem conhecia, o suor sem calor, ia nas águas diáfanas escorrendo um par de olhos sanpaku, os meus olhos, também marcados desde a nascença pela morte trágica.

Sou um pobre graveto, sem grito, nem dor, preso a um único pensamento de certeza: depois de hoje, não haverá mais tempestades. No futuro nada sou.

As tempestades seguintes caíram longe, do outro lado da montanha. Ele não veio, nem nunca mais virá. O dia ensolarado de sempre é o meu maior castigo, Será assim até o dia que minhas pálpebras fecharam para sempre as três enormes partes brancas de cada um dos olhos meus.

 
 
 

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