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Conto - Como nasce uma abelhinha, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 11 horas
  • 4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Como nasce uma abelhinha.


Como nasce uma abelhinha


Era agosto de 2026 e o mundo andava diferente. Em uma sociedade cada vez mais tecnológica e virtual, faltava espaço para a magia. Desde que Zeus, Odin e outras lideranças “testosteronadas” fizeram um pacto para deixar os homens guiarem suas vidas pela ciência e pela lógica, a humanidade tornou-se racional demais. Os eventos vitais deixaram de ter a assistência dos espíritos da natureza. Agora, para um filhote humano nascer, havia todo um protocolo a ser seguido. Saudades de quando homens e deuses conviviam sem reservas. Bastava um raio seguido de trovão e a criatura mítica chegava ao mundo dos mortais. Mas, no século XXI, a mitologia precisava atualizar-se para continuar presente na vida humana. Entidades ligadas ao sagrado feminino, à fertilidade e à maternidade estavam ociosas. Aborrecidas com a vida entediante e sem perspectivas para o futuro, elas decidiram se rebelar.

Deméter, deusa da agricultura e da fertilidade, foi a mentora da trama. Entendida em estações e colheitas, ela sabia onde e quando o solo estaria favorável para a ação planejada. A deusa convocou uma assembleia secreta em Heliade para apresentar o plano subversivo. Além de Deméter, participaram da tramoia a deusa Hera, a semideusa Aura, a ninfa grega Melissa, a jovem deusa japonesa Tennyo, Ticê (a entidade indígena sul-americana do sagrado feminino) e a deusa andina Pachamama. Deméter iniciou a assembleia saudando as participantes:

— Que bom que vieram. Como todas já devem ter percebido, o mundo virou um lugar aborrecido e nós, deusas, pouco ou quase nada podemos interferir na vida dos humanos e...

— A culpa é de Zeus! — interrompeu Hera, a mulher ressentida do chefão. — Anos atrás, quando ainda podia se transformar em boi e seduzir a bela Europa, ele vivia se intrometendo lá na terra. E agora nada pode! Machista!

— Hera, você precisa virar a página e esquecer esse rancor tóxico por Zeus — disse Aura.

— Sim. Aura tem razão. E nós não podemos perder tempo com conversa fiada. O evento ocorrerá antes do início da primavera. Nosso plano é simples: vamos efetuar uma missão de boas-vindas a um filhote humano. E, se tudo sair como planejado, poderemos voltar à ativa — disse Deméter, tentando manter o foco da reunião.

— Eu concordo! Demorou para tomarmos uma atitude e acabar com essa pasmaceira — disse Aura, a semideusa do vento.

— Sim, precisaremos de seu fôlego. E, considerando as condições geográficas, eu escolhi três voluntárias para a missão. A equipe será composta pela princesa Tennyo, pela brasileira Ticê e pela ninfa Melissa, nossa abelhinha.

Ao ver Melissa, Hera franziu a testa, fazendo cara de poucas amigas.

— Melissa foi quem escondeu Zeus em Creta para protegê-lo da fúria do pai. E ainda o amamentou e alimentou com mel. Se não fosse por ela, quem sabe quantos aborrecimentos teriam sido evitados — bufou Hera.

— Sem preconceitos. Mas por que você escolheu Tennyo e a Ticê? — agora foi a vez de Aura interromper a anfitriã.

— Nossa missão é especial e ela transcende os limites de Heliade. Vamos acolher uma filhota humana muito especial. Ela unirá oriente e ocidente. Sabemos que nascerá em agosto, no Brasil. A menininha será bem recebida — disse Deméter.

— E por que a Melissa vai nessa missão? Ela não é japonesa, nem brasileira. É tão grega quanto eu e você — reclamou mais uma vez Hera.

— Como você mesma lembrou do caso de Zeus, Melissa tem a capacidade de nutrir e cuidar. Ela apoiará e dará força vital à criança recém-nascida. Ticê conhece as florestas e os cerrados; com sua luz, guiará o trio até o destino. E Tennyo será a mensageira da bondade e da harmonia. E chega de tantas explicações! O que interessa é que as três sabem voar! — encerrou a conversa Deméter, já sem paciência. Depois, em um estalo de dedos, transformou Melissa em abelha, Tennyo em borboleta e Ticê em vaga-lume.

— Agora é a sua vez, Aura. Sopre o vento que as levará ao Brasil! — ordenou Deméter.

Aura soprou um fluxo de ar mágico e lá foram elas, abelha, borboleta e vaga-lume, voando para o Brasil. Pachamama, que permanecera calada durante toda a reunião, finalmente falou:

— Elas são boas meninas, mas não confio nas três sozinhas. Melhor ir supervisioná-las. Eu não perco a mania de ser mãezona de todo mundo. E, antes de Deméter dizer qualquer coisa, a mulher de ventre globoso e longos cabelos negros já havia desaparecido.

O trio chegou ao apartamento dos pais da menina na véspera do nascimento e, para sua frustração, deu de cara com a janela fechada. As três se entreolharam, não sabendo como resolver o imprevisto. E agora? Como entrar?

— Olha quem está lá dentro! — Ticê apontou para uma estatueta barriguda sobre a cômoda da sala.

— É a Pachamama! Como ela entrou? — perguntou Tennyo.

— Não interessa como entrou, mas o que ela está falando — retrucou Melissa.

Os lábios da estatueta subiam e desciam, silenciosos.

— Ela disse que nossas sombras têm permissão para entrar — respondeu Ticê, que conhecia a linguagem labial andina.

— É verdade! Nós já estamos lá dentro — Tennyo viu sua sombra de borboleta projetada na parede de dentro da sala.

Pachamama soprou as três sombrinhas para o quarto onde a mamãe dormia um sono tranquilo. A cada inspiração, uma sombrinha voadora passava pelo seu nariz. Primeiro entrou Ticê, depois Tennyo. Na vez de Melissa, a abelhinha, antes de entrar, foi ao ouvido da mamãe e zuniu algo bem baixinho que a fez sorrir.

Um bom tempo depois:

— Meninas, missão cumprida. Agora vocês podem voltar para casa — disse Pachamama, que apareceu atrás das três, do lado de fora do apartamento.

— Mas a criança ainda não nasceu, precisamos recebê-la — argumentou Tennyo.

— A energia de vocês já acompanha a menina. Amanhã ela nascerá bem.

— E como ela se chamará? — perguntou Melissa.

— Terá o último nome que a mamãe ouviu antes do início do trabalho de parto — respondeu Pachamama, piscando para a abelhinha.

E assim aconteceu: como nos tempos míticos, a menininha chegou amparada pelas forças da natureza e acolhida no sagrado feminino. Foi um dia lindo, como são os campos de girassóis, as estrelas do céu e as abelhinhas.

 
 
 

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