Conto - As sombras na parede do quatro, por André Alvez
- Alex Fraga

- 28 de fev.
- 6 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o escritor e poeta de Campo Grande (MS), André Alvez, com "As sombras na parede do quarto".
AS SOMBRAS NA PAREDE DO QUARTO
De uns tempos para cá já não sei mais diferenciar o dia da noite. É tudo uma coisa só. Os sonhos são tantos que não distingo a fantasia da realidade. Jaciara quase não fala comigo, finge que não existo, passa por mim num respirar longo e profundo, como quem tem pressa e esconde um segredo. Somente durante as rezas, no brilho opaco das luzes das velas, acarinha o meu rosto, diz que me ama e escuta os meus queixumes num rosto pálido de quem compreende mas não tem solução.Nunca fui de reclamar dessas coisas, mas ela está cada dia mais velha e eu continuo o mesmo, até mais bonito e vistoso. O canto do nosso quarto, de tantos quadros de santos dependurados e velas quase sempre acesas, está parecido com um átrio. O detestável cheiro de vela já nem me incomoda. É ali que os olhos de Jaciara, na rapidez da luz, dão de encontro aos meus. São olhos tristes, enrugados, atacados de lágrimas, envelhecida, a boca que murmura: “meu querido, eu te amo tanto...”
Saio de perto, que amor é esse que finge não me ver?
Tenho reparado no meu caminhar, firme, cada vez mais denso. A sensação de voar, já não a possuo mais. Não sei onde deixei o espelho, talvez jogado embaixo da cama. Os meus dedos confirmam num leve roçar, meu bigode está perfeito, não necessita de nenhum reparo. Meus cabelos também pararam de crescer. Talvez tenha branqueado um pouco, mas isso só o espelho pode responder. Onde foi mesmo que o deixei caído? Na última vez que choveu, notei na poça trêmula um tom azulado no meu rosto e uma mancha escura abaixo dos olhos. Preciso me cuidar, antes que envelheça tal e qual a Jaciara. A desagradável dor no peito desapareceu completamente e me sinto remoçar. Melhor assim, detesto médicos. A última vela acesa lança sombras na parede do quarto, brinco com os dedos, como quando criança, tento formar uma história, mas é estranho, meus dedos não refletem absolutamente nada na parede. Perdi o jeito com a luz, mesmo sendo fagulhas da luz fraca de vela se acabando. E como estará o sol lá fora? Há tempos não chove, o mesmo tanto que não saio de casa. Da última vez, chovia bastante, lembro da dor no peito, Jaciara apressada no abano feito com o próprio vestido, a sirene tresloucada que ainda ecoa, ligeira, aguda, na minha cabeça sempre que acordo. Tapo os ouvidos, penso no melhor: a sirene levou embora toda dor. A última chuva molhou o nosso gramado e algumas gotas ainda estão lá, posso ver de longe.Nunca sofri doenças. Jaciara, sim, os partos perdidos, a cabeça que às vezes girava e agora esse súbito envelhecimento. Deve ter alguma causa, precisa procurar um médico, desses que cuidam de gente triste, ela está passando de todos os limites, se movimenta com dificuldade, suspira ao sentar, reclama de tudo numa voz baixinha que só escuto porque estou sempre por perto. Ontem – talvez antes – sentei-me na cabeceira da cama, no meu lado que está sempre limpo e arrumado, rocei os dedos no seu pescoço, indo e vindo, até notar-lhe o arrepio. Disse nos ouvidos: Jaciara, procure um médico, eu não quero ficar viúvo. Não vê que envelhece? Seus olhos cada dia se perdem nas bolsinhas abaixo, roxas, repletas de tristezas e mágoas. A boca seca necessita de um batom, mulher não pode se descuidar assim, é preciso vaidade, veja o meu exemplo, estou sempre bem arrumado e disposto. Não pode ser assim, Jaciara, sinto saudades da moça de antes, quando nos casamos, sorria de tudo, se divertia até com os meus pileques e achava engraçado quando eu conversavaengasgado após uma longa tragada no cigarro: – Como você consegue segurar a fumaça no pulmão por tanto tempo? – perguntava num assombroso sorriso jovem – e então eu sorria, respondia com alguma bobagem, tragava outra vez e a encarava, até não aguentar mais e só então soltava a fumaça, aos poucos, pelo nariz, um filete de nuvem cinza misturado com um pouco de lágrima, como se tentasse temperar o sorriso do seu rosto juvenil. Ah, como você era linda, minha Jaciara.Tenho percebido um cheiro de mofo misturado com flores murchas pelos cantos da casa. Está grudado em mim, até nos sapatos. Aliás, talvez eu finalmente mude de roupa, essa que estou usando já tem um bom tempo sem trocar, é confortável e me causa um estranho sentimento de apego, embora o enjoativo cheiro de Tagete.
Acho que vou reclamar com a Jaciara, pedir que tome uma atitude a respeito, embora eu saiba que, como das outras vezes, sequer irá me escutar. Jaciara assiste à televisão como se eu não estivesse por perto, no costume antigo, o corpo preso ao sofá, os olhos cansados tomados por cochilos breves durante os quais aproveito para lhe contar as novidades:– Sabe aquele seu irmão que sumiu no mundo, o Valfrido? Ele não morreu, você senganou o tempo todo. Ele vem aqui às vezes, usa a mesma roupa cinza de quando o vimos pela última vez. Está do mesmo jeito, como se não tivesse envelhecido, até a barba está bem cuidada, embora o cheiro forte de mofo, espalhado pelo corpo magro e maltrapilho. Não permito que ele entre na nossa casa, o seguro com as mãos, empurro pela camisa, lhe dou bronca e mando embora. Ele sempre retorna e estou de vigília. Sossegue. repente, ela afasta o cochilo, sacode a cabeça, se levanta e passa por mim como se não me enxergasse. Ah, Jaciara, por que tanta indiferença? O que foi que eu te fiz? Não percebes que somos ligados pelos santos laços de Deus? Quando passeia, se encaixa em mim como um gancho de pesca. Ou será o contrário? Já vou me acostumando com essa sua nova faceta, sempre cantarolando alguma coisa passageira e depois se aquietando, engolindo o incompreensível choro de sempre, as mãos esticadas na cama, sem procurar o meu abraço. Eu olho para você Jaciara e uma dor estranha me invade. É quando a tristeza aproveita para entrar. Talvez eu também esteja envelhecendo, mesmo me sentindo moço e essa coisa de envelhecer faz isso com a gente, nos torna repugnantes. Não que eu sinta repugnância por você, não é isso, o que me atrapalha é o irritante silêncio. As sombras do quarto, somente elas, escutam o que digo, e me respondem, como o assoviar do vento.O amigo Aluísio é o único que vem nos visitar. Também está bastante envelhecido, faz o joguinho besta da Jaciara, finge que não me vê. Por que sempre choram? Não gosto do jeito que ele pausa as mãos sob as mãos da Jaciara e depois aperta e aperta, como se assim dissesse coisas incapazes de se falar. Me calo, corro até as sombras do quarto, aponto os dedos, acuso: vocês estão vendo? Depois retorno para perto deles, sorrio ao imaginar os tempos de juventude, quando ele era mais bonito que eu e, mesmo assim, Jaciara me escolheu. Aluísio nunca se casou e está tão velho. Eles conversam, me ignoram por completo, falam sobre os tempos passados, sorriem perdidos entre as doces recordações e não dão nenhuma atenção ao meu olhar de reclames. É dolorido, porque a indiferençamachuca muito mais que um tapa na cara. Quando Aluísio se vai, novamente o silêncio reina. Nunca tive vocação para a solidão, as paredes do meu quarto me bastam, essas paredes, suas sombras, do quarto que não é só meu, é também da Jaciara, mas as paredes apenas conseguem me ouvir.Às vezes não me controlo e desabafo: seus cabelos tão brancos, o rosto tão murcho, você está envelhecendo ligeiro, Jaciara, e eu, olha só para mim, cada vez mais moço!Ela sai assim que acorda, esquece o relógio em cima da mesa. Penso alertá-la, mas, ora, vê lá se vou ficar me preocupando com horários. Ela sempre volta no cair da tarde. As sombras rebatem o vento, escuto os sopros escapando das folhas das árvores distantes, insinuam o tempo gasto, cantam sobre lugares não tão distantes, onde a minha voz seria compreendida, mas eu sei que se enganam. Meu lugar é no quarto, junto de Jaciara. Ali é o meu lugar para sempre.
As vozes das pessoas seguindo o sopro do vento batem nas janelas carcomidas e retornam para fora. Não me importo nem mesmo se a casa desmorona, até já tive vontade de carpir o quintal, mas olhando com calma, percebo que a grama não cresceu depois da chuva. Jaciara come pouco, mesmo assim, segue engordando. Não digo nada, apenas lamento: da mulher bela de tempos atrás, resta muito pouco. Ela fuma e já não o faz escondido, pairando os olhos no ar, logo depois rumo à parede, me encarando fingindo não me enxergar, o cigarro preso entre os dedos e um rosto de angústia que não sei explicar. Sinto a necessidade de afagos, um abraço que não seja frio como as sombras na parede, então me retraio, fico imaginando que estou num sonho e dele não consigo acordar. Já gritei na madrugada de tormentoso silêncio, mas nem assim os cachorros pararam de uivar para a lua, somente os gatos se arrepiaram. Jaciara dorme um sono tranquilo. Me aproximo, roço novamente as mãos na sua testa e ela se arrepia, depois o rosto envelhecido se torna leve, talvez se sentindo protegida. Sento na ponta da cama, no meu lado esticado e limpo, coloco a mão no peito, apenas por costume, a dor já não existe, deu lugar ao medo que, amanhã, nem mesmo as sombras na parede do quarto conversem comigo





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