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Conto - Argemiro de rua, por Athayde Nery

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 14 de mai.
  • 2 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o advogado, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Athayde Nery, com "Argemiro de rua ".


Argemiro de rua


Naquela manhã de julho, na Campo Grande Morena, o tempo nascia acabrunhado e friorento. Anunciava uma chuva ardida e prolongada. O céu tinha espantado o azul fazia dois dias. Um vento molhado esfregava o vácuo nas esquinas e lojas fechadas com placas de “aluga-se”, no centro da cidade, especialmente na Calógeras mais pra perto da antiga Estação Ferroviária, onde já foi o fervo comercial. Argemiro sabia que o dia seria longo e modorrento . Estava embuçado num cobertor “seca poço”, que tinha trazido de São Paulo. Tinha se instalado na Rodoviária velha ali no Bairro Amambaí desativada desde 2010. Hoje é ponto de droga, de espaços comerciais lacrados e de pessoas em situação de rua. Argemiro não conhecia ninguém. Veio corrido de São Paulo tentar a sorte por essas bandas da bi-oceânica. Do alto dos seus 25 anos, já sabia o que era morar na rua. Abandono, é o seu nome. Solidão, sua profissão. Miséria, sua companheira. Violência, seu cotidiano. Bebia qualquer coisa que tivesse álcool. Parecia que tinha 60 anos mal vividos. Tudo estrupiado. Um amor mal sucedido depois de vir do interior de São Paulo para viver um tórrido romance, que lhe meteu o pé na bunda e foi embora para um lugar incerto e não sabido. Não teve coragem de voltar para casa. Ficou perambulando um dia inteiro, um mês, um ano, acostumou e não saiu mais e nem deu mais noticias pra família. Levou uma surra numa partida do Corinthians com o Palmeiras. Até hoje ele não sabe se é palmeirense ou corintiano. Passou no Mercadão, pediu comida pros indígenas, lhe deram, fez um carregamento de guavira e palmito. Ganhou um dinheirinho. comprou pinga. Voltou pro cafofo debaixo de uma marquise, onde dividia com mais cinco o pequeno espaço, ali nas beiradas da rodoviária velha, com seu cobertor “seca poço”. À noite, o frio veio pra valer misturado numa chuva gélida e impertinente. Argemiro morreu sem ver o dia ensolarado que se apresentou sorridente. Foi enterrado como indigente no Cemitério do Cruzeiro às 17 horas, por falência generalizada dos órgãos. Mas, morreu foi de frio, miséria e abandono mesmo.

 
 
 

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15 de mai.
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É Poeta Athayde, muitos "Argemiros" morreram de frio nesse dia.

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