Conto - Uma jiboia com artrose, por João Francisco Santos da Silva


Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Uma jiboia com artrose".
Uma jiboia com artrose
Era uma vez uma jiboia que nasceu comprida e flexível como uma fina taquara verde.
Ela vivia feliz no cerrado. Adorava comer preás e fazia isso com técnica e perícia. Primeiro, abraçava o ratinho até ouvir o estalo. Depois de fraturado, o engolia. Verdadeira contorcionista. Com movimentos constritivos e propulsivos, levava a guloseima até o estômago.
De barriga cheia e sonolenta, dormia por um tempo longo e indeterminado, camuflada entre folhas verdes.
Dizem que tudo que é bom um dia termina. E foi isso que aconteceu com a jovem jiboia. Numa manhã, homens com botas de cano longo, empunhando varas com um laço na ponta, chegaram onde a cobrinha dormia.
A coitada foi pega de surpresa. Eles a laçaram e a guardaram em um caixote plástico.
Acabaram-se os banhos de rio. Nunca mais dormiu à sombra de árvores nem rastejou pela floresta. Passou a viver presa em uma caixa, recebendo agulhadas todos os dias.
Com o passar do tempo, ela enjoou de comer os ratinhos brancos de laboratório. Eles não tinham a crocância da carne dos preás de sua floresta natal.
Envelhecida e sedentária, começou a sentir dores no corpo inteiro. Acordava e dormia com a maldita dor nas costas. Havia dias em que todas as suas 288 vértebras doíam ao mesmo tempo.
Para piorar as coisas, começou a perder força. Foi ficando com dificuldade até para espremer sua comida, um mero ratinho desossado e sem graça.
Deprimida, se conseguisse, ela se autoestrangularia.
Mas sua vida teve uma reviravolta. Veio a aposentadoria compulsória. Deixou de ser cobra de laboratório e foi viver seus últimos dias num centro de reabilitação.
Saiu da solidão da caixa e ganhou uma gaiola grande. Pelas grades, podia ver outras companheiras. As vizinhas de gaiola não eram muito amigáveis, mas, ao menos, depois de tantos anos vivendo isolada, faziam-lhe companhia.
Apesar das dores que sentia, voltou a espremer ratinhos e se alimentar melhor. Até conseguia tirar uma soneca na floresta.
A jiboia ganhava um ratinho com os ossos já quebrados. Iludida, surda, esquecida e rígida, imaginava o abraço e jurava ter escutado o creque. Engolia o bichinho e, quase se engasgando, quase se espremendo, imaginava-se fazendo os mesmos contorcionismos da juventude.
Depois de alimentada, fazia parte da reabilitação deixá-la contorcida, deitada no chão coberto de folhas do pequeno quintal ao fundo do serpentário.





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