Conto - Apenas mais uma história de loira-fantasma, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- há 1 hora
- 5 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Apenas mais uma história de loira-fantasma
Apenas mais uma história de loira-fantasma
Houve um tempo em que Chupa-cabras e Loiras-fantasmas dividiam espaço com latrocidas e estupradores nas páginas da crônica policial curitibana. Numa época de medo e insegurança para trabalhadores da noite, em especial taxistas, era comum escutar histórias como a relatada numa madrugada de maio de 1975, na delegacia de polícia para um escrivão sonolento:
— Toque para o cemitério do Abranches!
Como não atender pedido feito pela voz suave, saída de lábios carnosos e insinuantes? Ignorei ser duas horas da manhã e que já estava a caminho de casa, depois de rodar meia madrugada para conseguir alguns poucos gatos pingados saindo do boteco. Ainda pensei: quem quer ir ao cemitério às duas horas da manhã, numa madrugada fria e enevoada?
— Chega de devaneios e desembuche a história — final de turno, quase sete da manhã e o taxista, boca aberta por alguma vadia, alugando o tempo do escrivão que preenchia o último BO do plantão. Ribas, o escrivão, sabia que, se não houvesse dois agentes envolvidos no mesmo imbróglio, com certeza o depoente, meio lunático, receberia outro tratamento, mais apropriado ao seu caso. — Cidadão, vamos, prossiga a história — suspirou o escrivão.
–– Eu vinha pela Mateus Leme e, de longe, avistei um vulto dando sinal de parada. Ele estava em pé na beira da calçada, num local escuro, sem poste de iluminação, quase em frente ao cartório. Reduzi a velocidade e parei a uns dez metros de distância. Quem trabalha de madrugada precisa ser precavido. Olhei em torno para ter certeza de não haver mais alguém escondido de tocaia. Como não observei qualquer movimento suspeito, avancei o carro até parar diante dela. Para minha surpresa, ali em pé, aguardando meu fuque 1972, estava uma loira linda, de olhos azuis e vestida com um longo casaco de pele preto, contrastando com a pele pálida de seu rosto. O meu fuque é duas portas, abri a do lado do passageiro e dobrei o encosto do banco para frente. A moça entrou e sentou-se no meio do banco traseiro. Como disse antes, ela pediu para ir ao cemitério do Abranches. Eu fiz a volta na Mateus Leme e segui em direção ao início da Rodovia dos Minérios. O trajeto até o Abranches é longo e, para passar o tempo, puxei conversa com a loira.
— Puxa! Que tempo horrível, estou ficando gelado, e essa neblina não ajuda — olhei pelo retrovisor e percebi um sorriso misterioso me incentivando a continuar a
conversa — o seu casaco é lindo, deve estar bem quentinho aí dentro? — falei rindo, não custava tentar.
— Você nem imagina como é frio aqui dentro — ela disse isso e tocou com as mãos em minhas orelhas, e depois deslizou-as pela nuca — não gosto nem de lembrar, nunca senti um arrepio como aquele, me contraí inteiro — depois disso, evitei olhar pelo retrovisor; comecei a sentir o hálito gelado da loira no meu cangote. Na rua, a névoa virou garoa fina, e dentro do fuque fechado os vidros foram embaçando. A neblina fria de fora parecia ter invadido o carro, e com ela um cheiro intenso e amargo de crisântemo. Se pudesse, tinha abandonado o carro ali mesmo e fugido.
Por sorte, ainda seguindo pela Mateus Leme, avistei uma viatura policial estacionada. Tive a ideia de parar, com o pretexto de pedir uma informação qualquer, só para não ficar sozinho com a minha passageira. Dei seta e reduzi a velocidade. Nesse instante, olhei pelo retrovisor, e a loira havia sumido. Passei direto pela viatura policial e segui lentamente por mais alguns metros. Eu já ia fazer a volta para pegar o sentido do centro da cidade, quando me desesperei — a loira reapareceu sentada no banco de trás, e agora ria alto, debochando de meu medo. No susto, dei um cavalo de pau e retornei até a viatura policial. Pela forma como parei bruscamente, os policiais pensaram que eu estava bêbado ou drogado. Eles se aproximaram do carro empunhando revólveres e gritaram para eu colocar as mãos sobre minha cabeça. Demorou até eu conseguir gaguejar:
— Socorro! Levou ainda algum tempo para eles perceberem o quanto eu estava assustado. Depois de lhes contar sobre a loira, imaginei que dariam um esporro e me mandariam ir para casa descansar. Mas, para minha surpresa, mesmo sem ver a tal loira, um deles pareceu acreditar na história. O policial combinou que seguiria meu táxi com a viatura até o cemitério e, quem sabe, capturar a loira misteriosa, caso ela reaparecesse. E assim fizemos.
Com a viatura me seguindo, sempre à minha vista pelo retrovisor, dirigi rumo ao cemitério. Depois de alguns minutos, sem novidades, pensei se tudo aquilo não seria criação de minha mente cansada e no papel ridículo que estava fazendo. Foi quando senti o cheiro de crisântemo, e outro arrepio percorreu meu corpo. Lá estava a loira novamente.
— Querido, você não sabe brincar, a brincadeira era para ser só entre nós dois!
Dessa vez, ela parecia brava. Freei o carro bem em frente ao cemitério e, nessa hora ela me deu uma gravata e, apertando meu pescoço, tentou me estrangular. Mulher
forte, eu não conseguia me libertar. Ela foi me asfixiando até eu desmaiar e não ver mais nada.
— Você escutou os tiros? — Interrompeu o escrivão.
— Não! Quando acordei, só vi o sangue no banco traseiro do fuque. E os dois policiais falando que a mulher tinha sumido no ar.
— O agente Madeira disse ter disparado três tiros na cabeça da loira. E só depois disso, ela soltou o seu pescoço e caiu no banco. Você tem certeza de que não ouviu nada? — insistiu o escrivão.
— Já lhe disse: não ouvi os tiros e muito menos vi o policial atirar.
— Desse jeito, fica difícil acreditar em sua história. O Madeira foi proibido de dar entrevista, e você amarelou na hora H. Pense mais um pouco. Talvez sua memória refresque. A história, de tão maluca, é interessante. Uma loira fantasma baleada por um policial. Quem sabe um repórter de porta de cadeia não lhe dá um pró-labore para publicá-la no jornal, e você ainda lucra com sua maluquice!
O taxista pensou um pouco, na mulher com dois filhos pequenos em casa, e agora com um taxi assombrado para dirigir, fez um esforço mental e finalmente disse:
— O que você acha disso? Desabotoou os primeiros botões da camisa e baixou-a um pouco, descobrindo o pescoço. Surgiram duas marcas arroxeadas, uma de cada lado do pescoço e alguns arranhões.
— Ok, está liberado por hoje, mas o delegado mandou você voltar aqui em quarenta e oito horas. A polícia científica procederá uma perícia no taxi, e dependendo das investigações, podem surgir outras questões para serem esclarecidas com você. — Ah! Já ia me esquecendo, o Valdeci, da Tribuna do Povo está de plantão na recepção da delegacia. Quem sabe ele lhe dá um cachê, e você ainda ganha umas migalhas de fama — fica a dica, só não conte para ninguém que eu lhe dei o toque da imprensa.
Na manhã de 21 de maio de 1975, vários jornais de Curitiba estampavam a mesma notícia, embora com algumas variações:
“Em uma inacreditável história, mulher fantasma leva três tiros e desaparece” e; “Mulher fantasma é o novo inimigo dos curitibanos”.





Comentários