Conto - Clayton, o mirim, por André Alvez
- Alex Fraga

- 30 de mai.
- 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o escritor de Campo Grande (MS), André Alvez, com "Clayton, o mirim.
Clayton, o mirim.
Muito antes dos estagiários, existiu a impagável figura do mirim - um ajudante de escritório fardado, na casa dos quinze anos.
Clayton era da periferia e no seu rosto começavam a espocar as primeiras espinhas.
Comecinho dos anos noventa, eu conferindo umas planilhas, ele tirando cópias.
- Ontem fui tomar banho de piscina.
- Sei...
- Você já notou que as mulheres se depilam totalmente para usar biquíni?
- Hanrã ...
- Porque será que as mulheres usam biquíni, mas têm vergonha de mostrar a calcinha e o sutiã?
- Se você soubesse o tanto que é complicado o tal sutiã. ...
- Oi? Como é que é?
- Nada, nada....
- Eu ainda acho que não tem diferença do biquíni para calcinha e sutiã.
- Ô Clayton, muda a merda desse assunto, está me desconcentrando.
- Mas qual o problema se elas usassem calcinha e sutiã no ligar do biquíni?
- Cara, não me perturbe com idiotices, o tecido da calcinha é fino e transparente.
- Ah, mas isso é pouco motivo, quase ninguém notaria...
- Você gostaria que aquela sua irmã usasse calcinha no lugar do biquíni?
Olhos arregalados
- Claro que não, minha irmã é muito meiga e tímida. Ela é do coral da igreja, fique sabendo! Jamais usaria calcinha e sutiã no meio de muita gente.
- Mas calcinha e sutiã não é igual ao biquíni?
- Claro que não!
- Por que não?
Para, pensa, fica calado alguns minutos, depois retorna, cheio de certezas:
- É que irmã da gente é diferente.
- Cara, fica quieto, tenho 6 planilhas para conferir e não posso errar!
... Ele resmunga algo incompreensível, cara fechada, fica quieto, silêncio que dura pouco:
- Mas Eva usava apenas uma folha na....
- Puta que pariu, guri! Eu preciso trabalhar. Faz o seguinte, imagine que sua irmã é Eva e só usa uma folha...
Ele arregala os olhos, pensativo e quieto. Aproveito para fechar o assunto:
- Imagine também que Adão sou eu...
Finalmente o silêncio reinou, lá naquele dia de outono de 92...
André Alvez





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