Conto - A menina bruxa, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- há 1 dia
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "A menina bruxa"
A menina-bruxa
A bruxa primeiro seduziu o tio e, em seguida, matou-o com um feitiço de folhas verdes. Em Meraqueçaba, todos sabiam disso. Supersticiosos e, por temê-la, os moradores do lugarejo toleravam sua presença. Depois da morte do tio, foram imputados a Brígida outros três encantamentos. Com características em comum, ocorreram nas horas de menor luminosidade, em lugares afastados, terminando sempre com a pequena bruxa ensanguentada, contorcendo-se caída no chão.
Com tremores no corpo, como em uma dança sensual, a feiticeira parecia bailar com espíritos invisíveis. Diante do estranho espetáculo, algumas pessoas, as mais corajosas e bondosas, tentavam ajudar a jovem. Elas aproximavam-se dela e cuspiam várias vezes em seu rosto. A saliva da boca de pessoas de bem possuía o poder de afugentar os maus espíritos que acompanhavam a menina-bruxa.
O terceiro e último feitiço foi intolerável. Brígida seduziu o próprio pai. O encantamento ocorreu numa noite de lua nova, no mato atrás da casa. A menina saiu para urinar no terreiro. O cheiro da urina da fêmea atraiu o pai. Homem sério e, como tantos outros, suscetível à magia. Nessas horas sombrias, pais desconhecem filhos. Na manhã seguinte, ele passou o dia inteiro sentado ao lado de um galão de breu, em frente de casa. Transtornado, o homem só não se matou por falta de coragem.
Enfeitiçar o pai foi a gota d’água. A bruxa seria banida do Meraqueçaba na próxima lua minguante, a mais favorável para esse tipo de sortilégio. Até lá, a menina permaneceria presa em casa. Brígida sentia-se aliviada por ser expulsa do vilarejo. Quem sabe, em outro lugar, o mal, os homens e os espíritos a deixariam em paz.
Por vontade da mãe, a menina ajudou a preparar a sopa para o jantar da família. Ela mesma temperou a comida com sal e algumas folhas verdes, daquelas que sempre carregava consigo. Segundo testemunhas que não estavam na casa, a última refeição foi silenciosa e emanava um leve aroma de enxofre. Após o jantar, todos, menos o pai, deitaram-se nas esteiras estendidas pelo chão. O homem fechou a única porta e apagou as velas. Insone, o patriarca permaneceu velando o sono da esposa e dos oito filhos.
Os vizinhos despertaram durante a noite com o casebre envolto em chamas. As altas labaredas impediram qualquer aproximação da casa. Na fumaça, figuras mal definidas rodopiavam ao redor da casa em uma dança circular. Em certo momento, elevou-se do foco do incêndio uma labareda com forma feminina. No céu esfumaçado,
escutavam-se vozes indistintas e viam-se sombras voando para longe da vila, em direção ao litoral.
Em Itaquém, povoado à beira-mar, distante cerca de três léguas de Meraqueçaba, alguns moradores afirmaram ter avistado uma dezena de seres alados que, agrupados em duas colunas paralelas, escoltavam uma menina.
Ao amanhecer, quando o calor das cinzas arrefeceu, encontraram nove corpos carbonizados. Faltava um.





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