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Conto - A maçã e o sonho, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 12 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Sexta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com"A maça e o sonho".


A maçã e o sonho


Pagola vez ou outra passava com sua comitiva beirando Sidrolândia. O garoto não tinha a mínima ideia de onde ele vinha, muito menos para onde seguia. Chegava a comitiva, o boiadeiro e as suas tantas histórias. Menino curioso, adorava escutar os causos dos peões. Sempre metido na conversa dos adultos, nem que fosse apenas de rabo de orelha.

— Se você quiser realizar um sonho, depois dele sonhado, não conte para ninguém. Espere três dias de boca calada e só aí você o revela. Eu faço assim a minha vida toda e sempre deu certo! — disse Pagola, o veterano condutor da boiada.

Na mesma noite, depois de ouvir a conversa do Pagola, o menino sonhou gostoso. Agora seria apenas questão de tempo. Acordou cedo, contando os dias. Um, dois, três e depois do terceiro estaria livre para contar ao pai seu sonho. Garoto tagarela, sofreu calado durante o tempo do segredo. Quando pensava em dar com a língua nos dentes, lembrava-se do Pagola. Pessoas com cabelos brancos, como o velho boiadeiro, costumam saber das coisas. Ele não inventaria aquela história de sonho. Mas, e se estivesse mentindo?

A vida é para ser saboreada e cada um tem suas preferências. Para o garoto, garapa e maçã eram duas preciosidades. Garapa dava trabalho para fazer, e maçã ele provara poucas e inesquecíveis vezes na casa da vó em Campo Grande. Só de pensar vinha água na boca. Por falar em boca, melhor não pensar muito em maçãs, vai que não se aguenta e fala do sonho antes da hora. Não podia arriscar. Deixa para lá as maçãs vermelhas, lisinhas, brilhantes e a vontade de mordê-las fazendo barulho.

Mudou de pensamento, imaginou uma garapa fresquinha. Uhmmm, delícia! Pegou o facão e foi até o pequeno canavial, formado por algumas touças de cana. Escolheu uma grossa e cortou-a. Coisa boa ter um engenho no sítio. Com prática, o menino partiu a cana ao meio e a colocou na moenda. Ligou a engrenagem e começou a empurrar a cana para dentro. Um sabiá, pousado numa árvore ali perto, teimava em cantar alto e bonito. Um canto que de tão lindo distraiu o menino em agradável sensação. Novamente lembrou-se da maçã suculenta, cheia de caldo.

Nesse instante de distração, sentiu o tranco e um calor na mão direita. Saiu tanto sangue que custou a identificar a parte machucada. Foi uma correria geral. Embrulharam a mão do menino com uma toalha e mesmo assim, não parava de sangrar. Logo, a toalha ficou encharcada de sangue. Ao menos parecia não doer muito. Deu tempo para chegar no hospital em Campo Grande.

O garoto perdeu um pedaço do dedo anular direito. Porém, naquele dia encontrou uma inspiração para vida. Reconheceu a importância do homem que lhe operou a mão. Difícil explicar o que é ser importante para um menino do sitio, com apenas onze anos. Precisou ficar internado. Pensou que talvez nem todos os homens falassem a verdade. Dentro do hospital sofria em silêncio. Será que ali não havia espaço para sonhos? E o que adiantaria contar seu sonho? Os três dias calados não lhe serviram para muita coisa.

No horário da visita, chegou seu tio para vê-lo. Mas não veio sozinho, com ele também chegou o sonho guardado e aguardado. Na cama, o menino ganhou um embrulho de jornal. Dentro dele, envolta em papel de seda, a maçã de seus sonhos. Linda, vermelha, suculenta e saborosa. Pagola era sabido mesmo. O médico que lhe cuidou e reparou o dedo também era uma pessoa especial. O menino pensou que um dia poderia ser boiadeiro. Pensando bem, se sonhos são antecipações de grandes desejos, desejou ser médico. Quem sabe um cirurgião com nove dedos e meio? E a assim foi. E assim ele segue até hoje: sonhador, contador de causos e médico mastologista também.

Essa história é dedicada ao meu amigo “O Belo”.


Recado do autor:

Parecido com o “Belo”, eu também adoro causos e sou um tanto sonhador. Sinto um enorme prazer quando escrevo uma história gostosa de ser lida. Hoje gostaria de compartilhar com os leitores, que leem meus textos aqui no Blog do Alex Fraga, a realização de um sonho antigo. Meu primeiro livro está pronto para publicação. Ele é uma coletânea composta por trinta contos curtos com temática existencialista. As histórias percorrem as várias fases do ciclo vital, partindo do período pré-natal, nascimento, infância, idade adulta, terminalidade da vida, morte e chegando até um pouco mais além.

Livro: O polonês melancólico. Autor: João Francisco Santos da Silva. Editora: Samsara. Encontra-se em período de pré-venda e maiores informações sobre o livro podem ser vistas em: https://contosdesamsara.com.br/loja/ols/products/opolonesmelancolico

 
 
 

2 comentários

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Convidado:
14 de jul. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

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Iza Ratier
12 de jul. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Texto lindo e emocionante da história de vida do meu amado e guerreiro sobrinho Dr Naildo Alonso!🙏

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