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Conto - A duvidosa jornada da garrafa, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 47 minutos
  • 4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor, João Francisco Santos da Silva, com A duvidosa jornada da garrafa.


A duvidosa jornada da garrafa


Como em um desfile de destroços, o fluxo d’água barrenta e incessante, conduzia móveis, roupas, fotografias, madeirame de construção, porcos e até uma vaca. Em triste navegação rio abaixo, os objetos flutuantes chegavam na barra. E antes de serem despejados no mar, vacilavam rodopiando em um último redemoinho. Vestígios de três dias de chuvas fortes e contínuas. Espécies de mensageiros do sucedido no alto vale, a 80 quilômetros dali. Bomba de efeito tardio, do alto vale até a barra do rio, a correnteza levava mais de 20 horas para informar o tamanho da tragédia. Vidas e memórias transformadas em lixo molhado. Na foz, no baixo vale, o sol pouco garantia. Bastava o rio trazer a inundação de a montante para a cidade portuária também afundar.

O espigão demarcava o limite entre o rio e o mar. Pelo lado marítimo, colada ao mole, uma pequena faixa de areia formava uma prainha cheia de pedras cobertas de ostras. Próxima à barra, suas águas profundas permitiam a entrada de navios no porto, mas a tornavam uma praia perigosa e imprópria para banho. Também as correntes e redemoinhos não poupavam nem os melhores nadadores. Mas com sol e a maré baixa, podia ser um bom lugar para os catadores de ostras. Nas pedras mais próximas, com água na cintura, dava para coletar belos moluscos.

Depois de uma manhã de trabalho, com a maré enchendo e já cansada, a menina subiu no paredão de pedras que servia de quebra-mar. Ela gostava de ficar sentada lá em cima, em seu observatório, vendo os tesouros trazidos pelo rio serem entregues ao mar. Uma vez o irmão mais velho encontrou encalhada na prainha, uma penteadeira, quase boa. Apenas com a pintura arranhada e sem espelho. O irmão a levou para casa, lixou a madeira, passou um verniz e depois a gaveta até abria. Mas quem usaria numa penteadeira sem espelhos? Ficou amontoada no sótão junto com outras tranqueiras acumuladas pelo irmão.

Dessa vez não desceu muita coisa. Parece que a chuva comportou-se bem na cabeceira. Tirando a água tingida de ocre e uma cadeira de balanço com o assento de palha rasgado, o resto era o lixo de sempre, plásticos, latas e garrafas, gerados ali mesmo. A menina desviou a lembrança da penteadeira ao avistar uma garrafa diferente. Garrafa de vidro transparente, movimentada pelas marolas, ela ia e vinha, insistindo em bater nas últimas pedras, quase na ponta do espigão. Em breve a garrafa conseguiria ultrapassar o quebra-mar e partiria oceano afora.

A menina fixou os olhos na garrafa e, se eles estavam enxergando bem, dentro dela havia dinheiro.

— Dona Antônia! Venha aqui! Veja o que encontrei!

Metida na água até a cintura, encurvada próxima a pedra, a mulher gostou do pretexto para esticar um pouco as pernas. Subiu pelas pedras do espigão, como se fossem degraus de uma escada. Chegou em cima e olhou para onde a menina apontava o dedo.

— É só uma garrafa.

— Não! Olhe bem , tem dinheiro dentro dela.

— É mesmo! — Respondeu dona Antônia, mudando seu grau de interesse.

A garrafa continuava em seu bate-bate na extremidade do espigão. Exatamente no ponto mais profundo, quase no canal de entrada dos navios no porto. Nem dona Antônia, nem a menina de 10 anos sabiam nadar. E mesmo se soubessem, ninguém entraria ali conhecendo os perigos do lugar.

— Além do dinheiro, tem um outro papel na garrafa — disse a menina, insistindo na importância do objeto.

A curiosidade fez dona Antônia, mulher alta e forte, aceitar o desafio de resgatar a garrafa, de preferência sem que nem ela, nem a menina se afogassem na barra do rio. Plano simples. As duas desceram pela encosta do espigão até a pedra mais próxima d’água e com superfície lisa o suficiente para dona Antônia se ajoelhar. Então a mulher segurou firme a menina pelas canelas e ela foi meio que engatinhando apenas com as mãos, descendo na vertical, quase de cabeça para baixo em direção ao rio. A primeira tentativa falhou. A menina precisava de mais uns 10 cm de braços para alcançar a garrafa. Na segunda vez, as duas sabidas usaram um velho puçá de pescar siri encontrado nas pedras do mole. E assim conseguiram apanhar a garrafa com a rede improvisada.

Garrafa bem vedada com rolha de cortiça. Dentro dela uma nota de 5 contos e um papel dobrado. Curiosas, elas desdobraram a folha e leram a única frase escrita à mão:

Promessa de Maria Pinheiro para o Senhor Bom Jesus de Iguape.

Se fosse por terra, a garrafa ainda precisaria percorrer mais de 400 km para chegar ao destino. E por falar em destino, por coincidência, justo na próxima semana, a mãe da menina iria à Iguape. No percurso final, ela seria a portadora do bilhete e da nota de cinco contos. Naquele tempo quase tudo se resolvia assim, sem complicações.

Passaram os anos e o que nunca se resolveu na cabeça da menina foi a sua curiosidade, ou seria uma dúvida?

— Qual teria sido a graça que Maria Pinheiro pediu para o Senhor Bom Jesus de Iguape? Será que foi para não haver mais enchentes no vale? Até hoje, volta e meia, as chuvas e o rio ainda aprontavam das suas.

— Será que a mãe entregou a carta e o dinheiro no lugar certo?

 
 
 

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