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Conto - A broa e o "Chapa", por Athayde Nery

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 horas
  • 2 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o advogado, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Athayde Nery, com "A broa e o "Chapa"


A broa e o “Chapa”.


Naquela manhã com cara de presídio, ele se levantou, se olhou no espelho e não gostou do que viu. Estava mais cansado do que velho. Lavou o rosto amassado de uma noite mal dormida. Escovou os dentes com gosto de cigarro molhado. Penteou os cabelos sebosos cheios de caspa. Dali foi pro espaço da cozinha dividido por uma pano branco amarronzado. Na pia, pegou o pó. Gostava de café moído. Comprava no Mercadão. Esquentou a água no fogareiro, jogou no coador. Um café forte espalhou o cheiro naquele buraco. Lhe dava grande prazer aquele aroma. Lembrava quando era criança e na barra da saia da sua mãe aprendeu esse ritual do café no coador. Fogão com a lenha que trepidava misturando fumaça e café. Cozinha quentinha. Uma broinha de fubá bem simpática adoçava o dia. Ela misturava Cidreira e erva doce na broa. Coisa boa, pensava ele divagando já com um cigarro espremido nos lábios secos. Pagava um milhão por uma broa daquela. Que broa boa. Fubá, farinha de trigo, açúcar, ovos, manteiga, leite, erva doce e capim cidreira moído. Pra acalmar, dizia ela. Adorava quando ela lhe chamava no terreiro. “Anivaldo, a broa tá pronta!” O estômago sentia o café comendo a úlcera. Fazer o que, sem café não dá. Fazia bicos. Agora era chapa. Tinha um ponto ali na rodovia saída para Três Lagoas. Em dia bom, dava pra levantar mais de 300 reais. Concorrência forte. Já estão criando “disque chapeiro”. Hoje ia descarregar sacos de alimentos para pets. Gato e cachorro. No meio do descarregamento um saco escrito “Broa para cachorro”. Será que era igual a broa da minha mãe? Deixou cair o saco. Fez um rasgo. Espalhou broa na calçada. Quase levou uma chicotada do dono do estabelecimento. Rápido pegou uns quantos biscoitos de broa pra cachorro. Comeu broa de cachorro uns cinco dias. Não era boa igual a broa da mãe. A úlcera piorou. Sangrando por dentro. Foi enterrado como indigente no Cemitério do Cruzeiro.

 
 
 

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