Xadrez - Projeto criado por pai e filho sai dos clubes e ocupa a Praça da Bolívia


Em uma cidade em que a ocupação dos espaços públicos costuma estar associada a feiras, música e gastronomia, uma atividade silenciosa vem encontrando seu próprio público na Praça Bolívia, em Campo Grande. É o “Xadrez na Árvore”, projeto criado em 2024 por pai e filho que transformaram o interesse pelo jogo em uma iniciativa aberta à comunidade.
A história começou de maneira despretensiosa. Frequentadores da praça, Rahyran Chama e Caio Modena Chama passaram a levar os próprios tabuleiros para os encontros. Caio já tinha afinidade com o xadrez, e a intenção inicial era simples: jogar e ensinar algumas crianças que demonstrassem interesse. A presença dos tabuleiros, porém, despertou a curiosidade de outras pessoas. Crianças se aproximaram, começaram a fazer perguntas e a participar das partidas. O que inicialmente era uma atividade familiar passou, pouco a pouco, a ganhar características de projeto comunitário. “Como somos frequentadores da praça e meu filho gosta muito de jogar xadrez, começamos a trazer os tabuleiros e ensinar as crianças que tinham interesse em aprender”, conta Rahyran.
A expansão aconteceu sem que a proposta original fosse abandonada. O projeto manteve a informalidade, mas passou a organizar atividades com maior participação. Em 2025, realizou um campeonato de xadrez, reunindo jogadores em um ambiente diferente daquele encontrado em competições tradicionais. A competição, nesse caso, não é o único objetivo. O projeto aposta no caráter educativo e social do xadrez. O jogo exige atenção, memória, planejamento e capacidade de antecipar movimentos, mas também cria uma situação de convivência em que participantes de idades diferentes podem compartilhar o mesmo espaço.
É essa combinação que explica parte do crescimento da iniciativa. Para os iniciantes, o encontro funciona como porta de entrada para o jogo. Para quem já sabe jogar, é uma oportunidade de praticar e transmitir conhecimento. Para as famílias, representa uma opção gratuita de lazer. Os encontros acontecem todo segundo domingo de cada mês, na Praça Bolívia. A participação é gratuita e não exige inscrição profissional ou conhecimento prévio. Basta chegar e demonstrar interesse.
A lógica também permite que o projeto seja conduzido de forma colaborativa. Os participantes que dominam o xadrez podem auxiliar quem está começando, criando uma espécie de cadeia informal de aprendizagem. Não há uma separação rígida entre professor e aluno: o conhecimento circula entre os próprios frequentadores. Essa característica aproxima o projeto de uma ideia mais ampla de ocupação cultural dos espaços públicos. Em vez de depender de uma estrutura específica, o “Xadrez na Árvore” utiliza um equipamento que já pertence à cidade: a praça.
O nome do projeto não é apenas uma referência ao local. A árvore funciona como símbolo de uma iniciativa que cresceu a partir de uma atividade cotidiana. Os tabuleiros são colocados no espaço público, as partidas começam e, aos poucos, novos participantes se aproximam. A escolha do xadrez também contrasta com o ritmo acelerado de outras atividades urbanas. Em torno do tabuleiro, é preciso parar, observar e pensar antes de agir. Para as crianças, pode representar uma experiência de concentração e raciocínio; para os adultos, uma oportunidade de lazer e convivência.
O projeto não se apresenta como uma escola formal de xadrez nem como um clube destinado exclusivamente a jogadores experientes. Sua proposta é mais aberta: aproximar o jogo de quem está na praça.
Essa abertura é um dos elementos centrais da iniciativa. Uma criança que nunca jogou pode sentar diante de um tabuleiro. Um adulto que aprendeu há anos pode voltar a jogar. Um jogador experiente pode ensinar uma sequência de movimentos. A praça acaba funcionando como uma sala de aula improvisada e, ao mesmo tempo, como espaço de encontro. O campeonato realizado em 2025 mostrou que a iniciativa também pode avançar para atividades competitivas sem perder seu caráter comunitário. A experiência criou uma oportunidade para que os participantes colocassem em prática aquilo que aprenderam nos encontros.
Para Rahyran e Caio, a trajetória do projeto reforça uma ideia básica: grandes iniciativas nem sempre começam com grandes estruturas. No caso do “Xadrez na Árvore”, foram necessários apenas alguns tabuleiros, interesse pelo jogo e disposição para compartilhar conhecimento. A experiência também evidencia o potencial dos espaços públicos como ambientes de aprendizagem. Uma praça pode ser lugar de lazer, cultura, convivência e educação informal — muitas vezes sem a necessidade de uma programação complexa.
Na Praça Bolívia, o xadrez encontrou um público próprio. E a iniciativa que começou entre pai e filho passou a reunir outras famílias, crianças e jogadores em torno de uma atividade que combina estratégia, paciência e convivência. Enquanto as peças avançam sobre o tabuleiro, o projeto também constrói sua própria trajetória. A cada segundo domingo do mês, a árvore volta a abrigar tabuleiros, jogadores e curiosos. A partida termina, mas a proposta permanece: fazer do espaço público um lugar onde aprender e conviver sejam atividades acessíveis a todos.





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