top of page

Texto - Quarenta anos depois, continuo acreditando na cultura!, por Alex Fraga

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 7 horas
3 min de leitura

*** ALEX FRAGA***---


Existem momentos em que a vida nos obriga a parar. Não para fazer contas, mas para lembrar. Lembrar de onde viemos, das pessoas que encontramos pelo caminho, das escolhas que fizemos e, principalmente, daquilo em que continuamos acreditando depois de tantos anos.

Na última sexta-feira(26), no Escritório Cultural, vivi um desses momentos. Receber uma homenagem do projeto Mãos da Arte foi emocionante porque, de alguma maneira, aquele gesto me fez voltar no tempo e olhar para uma trajetória de 40 anos de jornalismo — boa parte dela dedicada à cultura.

Quarenta anos de jornalismo não são apenas quatro décadas de profissão. São milhares de páginas, entrevistas, personagens, histórias, noites de fechamento, redações, viagens, encontros e desencontros. São também mudanças profundas na maneira de fazer jornalismo. Do papel às novas plataformas, muita coisa mudou. O que não mudou foi a necessidade de informar com responsabilidade.

Minha relação com a cultura começou muito antes de ela se transformar em uma área tão presente na minha trajetória profissional. Ao longo dos anos, tive a oportunidade de trabalhar em diferentes jornais e projetos, entre eles o Diário da Serra e O Estado de Mato Grosso do Sul, além de participar da criação do Caderno Dois, espaço que nasceu com a intenção de tratar a cultura não como uma página menor, mas como parte fundamental do jornalismo.

Sempre entendi que cultura não é apenas entretenimento. Cultura é identidade. É memória. É comportamento. É história. É também uma maneira de uma sociedade olhar para si mesma.

Por isso, nunca consegui fazer jornalismo cultural apenas para dizer que tudo está bem. Acho que o papel do jornalista é outro. É mostrar o que merece ser reconhecido, mas também apontar aquilo que precisa ser discutido. É dar espaço para quem muitas vezes não tem espaço. É questionar quando necessário. É não confundir divulgação com crítica.

Em Mato Grosso do Sul, essa responsabilidade ganha uma dimensão ainda maior. Temos artistas, escritores, músicos, atores, produtores, artesãos, fotógrafos, pesquisadores e tantos outros profissionais construindo diariamente uma cultura que nem sempre recebe a atenção que merece.

Ao longo desses anos, procurei fazer parte dessa história. Não como dono da verdade — ninguém é —, mas como alguém que acredita que o jornalismo pode ajudar a revelar aquilo que muitas vezes permanece invisível.

Por isso, a homenagem do Mãos da Arte me emocionou.

O projeto parte de uma ideia que considero fundamental: reconhecer pessoas enquanto elas estão aqui para receber esse reconhecimento. Valorizar trajetórias, registrar histórias e transformar um gesto de carinho em memória.

E há uma simbologia bonita nisso. A arte também é uma forma de vencer o tempo.

Uma canção permanece quando seu compositor já não está mais aqui. Um livro continua conversando com leitores que sequer conheceram seu autor. Uma fotografia devolve ao presente uma cena que parecia perdida. Uma obra de arte atravessa gerações.

Talvez seja exatamente isso que o Mãos da Arte esteja fazendo: criando memória enquanto a história ainda acontece.

Por isso, meu agradecimento ao Luciano Yonaka (Escritório Cultural), ao Oba Brasil, ao projeto Mãos da Arte, a Maria Claudia, Marcos Mendes e a todos que participaram desse momento. Recebo esse carinho com humildade e, sobretudo, com gratidão.

Ao longo da vida, algumas homenagens chegam como reconhecimento. Outras chegam como afeto. Esta, para mim, trouxe os dois.

E trouxe também uma responsabilidade.

Depois de 40 anos, continuo acreditando que vale a pena fazer jornalismo. Continuo acreditando que vale a pena falar de cultura. Continuo acreditando que Mato Grosso do Sul tem muito mais para mostrar do que aquilo que muitas vezes aparece nas manchetes.

Ainda existem histórias que precisam ser contadas, artistas que precisam ser conhecidos, livros que precisam ser lidos, músicas que precisam ser ouvidas e políticas culturais que precisam ser discutidas.

Por isso, a homenagem não representa um ponto final.

É uma pausa para agradecer.

Depois, a gente volta para o computador, para a página em branco. E continua.

Porque, depois de 40 anos, ainda acredito que a cultura merece ser vista, o artista merece ser ouvido e o jornalismo precisa continuar perguntando por quê.



 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page