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Texto/Poesia - Tônia Carrero e Rubem Braga: um amor em Paris, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 8 horas
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Tônia Carrero e Rubem Braga: um amor em Paris.


TÔNIA CARRERO E RUBEM BRAGA: UM AMOR EM PARIS

Raquel Naveira


Paris é uma cidade de tirar o fôlego: os jardins clássicos, a água furta-cor do rio Sena, as margens fluviais charmosas com bancas de livros e flores, as catedrais góticas, as galerias com imensos quadros impressionistas.

O filme “Casablanca” é um ícone romântico, cheio de ação, espionagem, aventura. Um triângulo amoroso que exige sacrifício e renúncia. Inesquecível o diálogo entre Rick (Humphrey Boagart) e Ilsa (Ingrid Bergman), que foram amantes em Paris. Ela pergunta na despedida: “_ E quanto a nós?”. Ele responde: “_Nós sempre teremos Paris.” É a aceitação da separação. A maturidade. O foco na beleza do que foi vivido. Todos sonham em viver algo maravilhoso, fascinante, em Paris. E vivem.

Foi lá que aconteceu a paixão desmedida, intensa, atribulada entre a bela e sedutora atriz, Tônia Carrero (1922-2018) e o diplomata e cronista Rubem Braga (1913-1990). Flanavam juntos, de mãos dadas, pelas ruas de Paris. Corria o ano de 1947. Os dois eram casados. Ela, com o artista plástico Carlos Thiré, com quem tinha um filho, Cecil. Ele, com a dramaturga mineira Zora Seljan, mãe de Roberto Braga. O casal se encontrava às escondidas num pequeno hotel. Ao redor deles: o ciúme, a fúria, o flagrante moral e as luzes estonteantes de Paris.

Ao voltarem para o Rio de Janeiro, os casamentos de ambos terminaram. Tônia decide romper também com o instável e mulherengo Rubem Braga. O escritor reage de forma dramática, ameaça atirar-se sob os carros ou se jogar no mar. Persegue os passos de Tônia. Envia rosas vermelhas para o camarim do teatro onde ela se apresentava. Mas ela o trata com desdém. Era o encerramento definitivo. Ele nunca a esqueceu. Manteve admiração pela atriz ao longo de toda a vida. Escreveu por décadas poemas, crônicas e cartas endereçadas a ela, como este soneto “Tarde”:


E quando nós saímos era a Lua,

era o vento caído e o mar sereno

azul e cinza-azul anoitecendo

a tarde ruiva das amendoeiras.


E respiramos, livres das ardências

do sol, que nos levara à sombra cauta

tangidos pelo canto das cigarras

dentro e fora de nós exasperadas.


Andamos em silêncio pela praia.

Nos corpos leves e lavados ia

o sentimento do prazer cumprido.


Se mágoa me ficou da despedida

não fez mal que ficasse, nem doesse:

- Era bem doce, perto das antigas.


Quem me enviou o poema e me fez relembrar desse caso amoroso foi Danilo Gomes (1914), o jornalista e crítico literário, que pertence à Academia Mineira de Letras. Danilo conhece profundamente a história urbana e literária do Brasil. É um grande memorialista. Escreveu o estudo “Em torno de Rubem Braga: ensaio e homenagem ao estilo do mestre”. Danilo foi assessor de imprensa da Presidência de República (1985-2004), nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Em mensagem, Danilo descreveu: “Encontrei-me com Tônia uma vez, no Palácio do Planalto, numa homenagem a Fernanda Montenegro. Dei a Tônia o meu livrinho sobre Rubem Braga. Ela ficou surpresa. E, segurando minhas mãos, olhos marejando, ela me disse o soneto que Rubem Braga lhe dedicara.” E acrescentou: “Emotiva, franca, verdadeira, amável e adorável. Assim era Tônia Carrero, carioca da gema. (Não quero dizer que todas as cariocas sejam assim). E aquele poema do Rubem é antológico, como você captou logo.”

No meio de tudo isso, pegou-me, de surpresa, a pergunta de uma amiga que se preparava para viajar a Paris: “_ O que você quer que lhe traga de presente de Paris?” Respondi em forma de poema:


_ O que você quer de Paris?

_ Uma folha da borda do Sena,

Uma folha de castanheira,

Ressequida e amarela.


Bastará uma folha

E me virão à lembrança

Os beijos,

Os barcos,

As abadias;

Atravessarei pontes,

Arcos,

Águas ancestrais

E ficarei presa ao passado,

Às torres

E ao cais.


Uma folha só,

Da árvore mais velha

Ou da mais alta

E sorverei magia,

Gotas de chuva,

Pingos de luz.


Uma folha arrancada pelo vento

Como a que caiu

Sobre meu casaco de veludo

Naquela tarde bordô.


Uma folha do Sena

Armazena todo meu sonho

De ser feliz.


Uma folha da borda do Sena

É o que quero de Paris.

 
 
 

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