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Texto/Poesia - Salomé, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 11 horas
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto poético com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Salom;e".


SALOMÉ

Raquel Naveira


Que personagem trágica é Salomé. Associada à violência, à morte e à ruptura. Agente do caos. E, no entanto, o nome “Salomé” vem do hebraico e significa paz, plenitude e harmonia. A mesma raiz de “Salomão” e “Shalom”. Um nome que não aparece nos evangelhos, mas foi registrado pela história.

Relembremos essa passagem: Salomé era filha de Herodíades e enteada de Herodes, governador da Galileia. O profeta João Batista denunciara o casamento ilícito de Herodes e Herodíades, mulher de seu irmão e, por esse motivo, foi preso num cárcere. Em um banquete de aniversário, Salomé dançou para Herodes, a célebre dança dos sete véus, agradando-o. Herodes prometeu dar-lhe o que pedisse. Instigada por sua mãe, pede a cabeça de João Batista numa bandeja de prata. Contrariado, pesaroso, Herodes manda executar João Batista. Salomé torna-se assim símbolo de sedução e perversidade. A inocente manipulada ou a vingadora moralmente sem caráter.

O escritor, poeta e dramaturgo irlandês, Oscar Wilde (1854-1900), conhecido por sua sagacidade mordaz, suas vestes luxuosas e extravagantes, sua hábil e cortante oratória, escreve em Paris a peça “Salomé” (1891). É uma das obras mais provocadoras do teatro moderno, marcada por erotismo e tragédia. A ação se passa no palácio de Herodes. Salomé não é apenas instrumento da mãe, é protagonista ativa, dominada por um desejo absoluto, insaciável. É fêmea transgressora, destrutiva, que aniquila o objeto amado.

Trememos ao ouvir a voz de Salomé: “_Teu corpo é branco como os lírios de um campo nunca ceifado.” E João retrucando: “_Para trás, filha da Babilônia. Não me toques.” Salomé insiste, avança querendo beijar a boca do profeta. Ela sabe que há algo de terrível na sua palavra. O seu desejo é calá-lo com seus beijos.

Da rejeição, surge a sentença: “Quero a cabeça de João Batista numa bandeja de prata.” A prata mais brilhante para aparar o fruto cobiçado. Salomé finalmente beija a boca ensanguentada. Herodes, aterrorizado, dá a ordem: “_ Matem essa mulher.” Salomé ultrapassara todos os limites: morais, religiosos e políticos.

Outro elemento cênico em destaque na peça de Oscar Wilde é a lua. A lua como força poética que acompanha toda a loucura. A lua como espelho da alma. Todos os personagens comentam sobre a lua: ora ela é branca e virgem, ora pálida e doente, ora amarela, ora vermelha e fantasmagórica.

Salomé é lunar. A lua ilumina os corpos, as peles, os olhares noturnos. A natureza participa obsessivamente com mudanças de tom. Testemunha muda do crime: “_Como a lua é estranha esta noite. Parece uma mulher morta.” “_ Como a lua está branca. Nunca a vi tão branca.” “A lua parece um disco de sangue...estou com medo”, sussurra Herodes após a fatídica execução. Finalmente, a lua se esconde atrás de uma nuvem. Tudo volta ao normal, mas o horror havia sido revelado.

Escrevi o poema “Salomé”, numa noite escura, observando e sendo observada pela lua e pelas estrelas:

Salomé,

Nome de mulher,

Vermelho e duro,

Romã entreaberta

De rubis conglomerados

Em arquitetura secreta.


Salomé,

Nome de mulher,

Ensopado de sangue,

De vinho,

De mágoa,

Loucura que afaga.


Salomé,

Nome de mulher,

Dançarina que se despe,

Serpente que morde o ser

Pronta

Para o que der e vir.


Salomé,

Por tua ordem,

Tua língua,

Teu tálamo que mata

Cai a cabeça de um homem

Sobre uma bandeja de prata.

 
 
 

2 comentários

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há 2 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Raquel, que texto maravilhoso e encantador.

Fico muito feliz em ver nossa poetisa e escritora Raquel Naveira sempre nos presenteando com textos e poesias tão sensíveis, que nos encantam no dia a dia e nos dão entusiasmo para continuar no caminho da escrita.

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Convidado:
há 3 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Magnífico texto, amiga Raquel! Perfeita analogia sobre Salomé.

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