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Texto/Poesia - Rios Paraguai e Apa, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 18 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Rios Paraguai e Apa".


RIOS PARAGUAI E APA

Raquel Naveira


Como é bom observar os rios. O fluir das águas, a corrente da vida e da morte em direção ao oceano, a travessia de uma margem à outra. Os rios simbolizam sempre a existência humana com sua sucessão de desejos, sentimentos, intenções e variedade de desvios. Heráclito meditou: “Aqueles que entram nos mesmos rios recebem a corrente de muitas e muitas águas e as almas exalam-se das substâncias úmidas”. Platão sintetizou: “Não conseguiríamos entrar duas vezes no mesmo rio.” A palavra “rios” no plural significa que existe um rio para cada homem que mergulhar em suas águas.

Minha terra, o Mato Grosso do Sul, é cheia de rios. Para cada uma de suas cidades existe um ou mais rios. Dentre eles, destaca-se o Rio Paraguai, caudaloso como um mar, responsável pela existência de duas cidades históricas: Corumbá e Porto Murtinho. Para ele escrevi o poema:

Ver o rio Paraguai:

A massa,

A corrente,

O volume veloz da águas

Sob o casco

Que singra

O oceano doce,

Barrento,

Coalhado de camalotes,

Verdes ilhas

Que a balsa tritura,

Como se tivesse dentes;

Do outro lado,

Corumbá branca,

Caiada.


Ver o rio Paraguai

Da ribanceira de Porto Murtinho,

Esperando uma chalana,

Uum barquinho

Que leve à margem,

À índia de combinação

Lavando roupa na barragem.


Ver o rio Paraguai

Da sacada do castelo de Solano Lopes,

Seu sonho de ditador

Dissolvido em ondas de lama,

Transformado em favela

Que ferve ao sol.


Ver o rio Paraguai

Entrecoratando o Pantanal,

Formando canais,

Alcançando Assunção,

Onde marinheiros vestidos de azul

Descem a Bacia do Prata,

As veias fluviais

Abertas no peito

Da América do Sul.


De qualquer ponto,

De qualquer porto,

Ver o rio Paraguai

Enche a alma

De melancolia,

De canções,

De histórias,

Sensação de sempre

E de nunca mais.

Afluente do Paraguai, o Apa é o mais significativo referencial da cidade de Bela Vista, cenário da Retirada da Laguna, vizinha da cidade de Bella Vista do Paraguai. Às suas

margens passei momentos inesquecíveis de minha infância e adolescência, viajando por suas águas barrentas, ora verdes, ora pesadas de terra. Gravei-o neste poema:

Olhe no mapa,

Aqui entre o sul de Mato Grosso

E o Paraguai,

À beira duma cidade chamada Bela Vista,

Passa o rio Apa.


Se conheço o Apa?

Ah! Amigo!

Quando criança

Não havia ponte,

Ele me parecia tão largo...

Atravessávamos em pequenos barcos,

Minha avó de sombrinha de estampa

E aquele ar de quem usava perfume francês.


Rio Apa...

Lembro-me das savanas secas,

Dos pés de cedro,

Das laranjeiras amargas,

Ardidas de sol;

Um som misterioso nas margens:

Gemidos,

Gritos de guerra,

Cordas de harpa.


Ao longe

Via a escadaria de uma igreja,

Uma santa na lapa:

Na ribanceira,

Um marco:

Jovens rapazes

Mortos no Apa.


Pescava nas águas turvas,

Entre os morros de formigas,

Envolto numa capa

Porque às vezes faz muito frio

No Apa.


Se conheço o Apa?

Ah! Amigo!

Está vendo esse mapa,

Esse filete azul?

Ficou gravado para sempre,

Artéria em meu coração.

.


Louvo os rios Paraguai e o Apa, que contribui para seu volume e fluxo. São vasos e veias do meu próprio corpo.

 
 
 

3 comentários

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Convidado:
24 de set. de 2025
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Bonito.

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Convidado:
24 de set. de 2025

Rio é vida, parabéns Raquel, bela crônica!

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Convidado:
22 de set. de 2025

Que lindo texto! Parabéns, talentosíssima Raquel!

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