top of page

Texto/Poesia - Nabucodonosor, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 7 de mai.
  • 2 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Nabucodonosor".


NABUCODONOSOR

Raquel Naveira


Que personagem trágico foi Nabucodonosor (642 a.C.- 562 a. C.), rei e governador do Império Babilônico. Um tirano qu exerceu o poder de forma cruel, injusta e autoritária, colocando sua vontade e sua sede de vingança acima das leis. Demonstrou, com seus atos de ferro, desdém e indiferença ao sofrimento alheio. Perseguiu, censurou, cometeu excessos. Tudo com a frieza de um cérebro gangrenado. Levou o povo de Deus ao cativeiro, às dores do exílio; destruiu Jerusalém, o Templo de Salomão, algo extremamente devastador para o exercício livre da fé. Humilhou e oprimiu.

Por outro lado, Nabucodonosor foi administrador eficiente, estrategista militar e amava a arquitetura. Os Jardins Suspensos da Babilônia, atual Iraque, foram uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. A “Porta de Ishtar”, dedicada à deusa arcádia Ishtar, era suntuosa. Toda decorada com dragões e touros dourados.

Nabucodonosor aprendeu duramente sobre humildade. Contemplando a beleza de seu reino, proferiu a frase: “_Não é esta a grande Babilônia que eu construí?” Nesse momento, perdeu tudo. Enlouqueceu. A soberba conduz à queda. O seu sonho com uma gigantesca árvore derrubada tornou-se realidade. Ele perdeu a razão. Passou a viver como um boi, uma vaca. Andava de quatro, mugia, comia capim, num surto psicótico chamado “boantropia”. O fenômeno dos “therians” de hoje, pessoas que têm forte identificação com um animal, percebendo-se como um animal em um corpo humano, numa grave crise de identidade, remete a esse transtorno mental. Ao se afastarem da premissa de que somos feitos à imagem e semelhança de Deus, perdem a humanidade. Triste ver jovens se aproximando dos deuses zoomórficos, metade homem, metade animal.

Nabucodonosor, depois desse sofrimento intenso, num momento de lucidez, proclamou a soberania de Deus, quebrou o orgulho e recuperou seu trono. Abraçou o arrependimento e a restauração. Pensando nessa história, escrevi:

Fui rei,

Tinha um palácio de ouro

E, modelados no alabastro,

Ídolos cegos e impassíveis;

Andei sobre jardins suspensos

À sombra de ciprestes,

Amoreiras,

Pistaceiras,

Entre desenhos recortados de zimbro e buxo;

Com sangue, meus escravos

Construíram imensa escadaria,

Rival do céu,

Pedestal de um deus

Que baixaria à terra

Com veste de púrpura;

Arrasei templos,

Arranquei vasos sagrados

Para neles beber vinho

Com minhas amantes;

Levei povos ao cativeiro,

Iam arrastados e lentos

Como fantasmas no deserto;

Sonhos me perseguiam:

Estátuas partidas,

Árvores desfolhadas,

Enigmas que nem magos,

Feiticeiros

E astrólogos decifravam;

Terá sido visão?

Homens no meio do fogo

Louvando seu Senhor?

Haveria poder maior que o meu?

Desde esse dia

Vivo pelo campo,

Pastando como boi,

O corpo recoberto de penas de águia,

As unhas crescidas como garras,

Só o orvalho molha minha febre

Enquanto deliro.


Que bela é a virtude da humildade. Base de todo edifício espiritual. Reconhecer nossas limitações e fraquezas. É libertador termos consciência de que não somos superiores a ninguém. Largar a capa da ostentação e da empáfia pelas escadas. Respeitar o próximo. Sempre há algo a aprender com o outro. Ainda que a fascinante Babilônia continue a brilhar diante de nossos olhos, com seus tijolos de vidro azul.

 
 
 

2 comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Convidado:
12 de mai.

Belo texto! Parabéns, talentosíssima Raquel!

Curtir

Silvio Santana de Souza
08 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Com Raquel é sempre assim: História é poesia se juntam trazendo para levar ao leitor uma informação prazerosa.

Curtir
bottom of page