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Texto/Poesia - Manequins II, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 9 de jul.
  • 2 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Manequins II".


Manequins II

Raquel Naveira


Os manequins das lojas de modas, aqueles bonecos de madeira, cera ou resina, que representam o corpo humano, cujos membros têm as junções quebradas para imitar o jogo das articulações e que servem para expor roupas nas vitrines, são assustadores. Os que têm rostos humanos com olhos e cabelos impressionam ainda mais. Sempre imagino que me encaram lá do fundo de suas almas ocas, que se mexem, que tentam me tocar por um instante. Quando despidos, partidos, descosturados, passam uma sensação de impotência, de tristeza, de mundo caótico e absurdo.

Dante Milano (1899-1991), poeta carioca, escreveu um conto intitulado “O Manequim”, do qual transcrevo trecho: “Sempre gostei dos manequins. Quantas vezes parei diante das vitrines, fingindo-me atento às mercadorias, olhando de soslaio. À noite, ao voltar para o meu quarto de solteiro, sonhava-me casado com um desses seres tão lindos. As mulheres, mesmo as mais mocinhas, as mais ingênuas, me pareciam poços de malícia em comparação com os manequins sempre tão gentis; e eu temia ver a minha figura refletida nas águas fundas e turvas de uma alma feminina.”

E há os solitários que compram um manequim, um autômato, uma boneca, dão-lhe um banho de perfume, deitam-na na cama, a cabecinha no travesseiro. Depois acendem a lâmpada do abajur e fazem a figura parecer semiviva numa atmosfera lilás. E há beijos, carinhos extremados, choros e gozos. A carência do ser humano, a necessidade de amar e ser amado é tão grande que pode matar, sufocar ou enlouquecer.

Perplexa, escrevi este poema:

Aquela lembrança do manequim na loja

Se aloja com terror dentro de mim;

Vi um homem esquartejando a mulher da vitrine,

Bem na altura do rim,

Arrancou os braços,

As pernas,

A cabeça

Sobrou só o vestido no fim.


Era uma bela manequim,

Tinha olhos, cabelos,

Parecia viva,

Mas era apenas um cabide de marfim.


Era uma bela manequim,

Alguém poderia levá-la para casa,

Para servir de companhia

E enganar a solidão assim.


Era uma bela manequim,

Tinha enigma de esfinge,

Espáduas de estátua,

Um perfume de naftalina e jasmim.


Era uma bela manequim,

Uma ninfeta,

Uma etiqueta,

A maquiagem perfeita

Toda feita a nanquim.


Depois daquele dia

Passei a ter dúvidas quando vejo uma face carmim:

Será gente?

Será manequim?


A lembrança do manequim na loja

Se aloja com terror dentro de mim,

Não seria eu mesma refletida do outro lado da vitrine?

Não estariam arrancando pedaços de mim?

 
 
 

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Belo texto! Parabéns, talentosíssima Raquel!!!

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