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Texto/Poesia - México, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 11 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "México".


MÉXICO

Raquel Naveira


A amiga viajou para o México. Está encantada com as praias de águas azul-turquesa de Cancún. Os mariachis de Guadalajara, com seus enormes chapéus, tocando violinos, trompetes e guitarras. As noites regadas a tequila e sopas de milho. Chegou à Cidade do México, capital vibrante e gigantesca, que combina história pré-colombiana, colonial e moderna. Neste ponto, pergunto se já esteve no Museu do México:

Museu,

Palco para dramatização

De um espetáculo grandioso:

Ali estão o deus da noite,

O guerreiro tolteca,

Restos do templo de Tula,

Escudos de borboleta,

Túmulos dos sacerdotes,

Máscaras de jade,

Imensas cabeças

Sóis fosforescentes.


Por toda parte,

Lembranças,

Símbolos,

Lascas,

Fragmentos,

Peças dignas

Dos ancestrais astecas.


De pedra e alumínio,

Basalto e vidro,

Estuque e bronze,

Indígenas e espanhóis

Formou-se uma revolução mestiça

Que atiça com coragem para o futuro.


Ela me respondeu que conhecera a Pirâmide do Sol, impressionante templo cerimonial, cheio de lembranças religiosas e astronômicas, palco de tantos sacrifícios. Sim, os deuses maias eram sanguinários, exigiam oferendas de corações humanos:

Corações,

Corações humanos,

Exigem nossos deuses

Com suas bocas de pedra

E seus desejos soberanos.


Corações palpitantes,

Pulsantes,

Escorrendo sangue

E águas primordiais;

Centros da inteligência,

Da intuição,

Dos comandos vitais;

Luzes da alma,

Revelações,

Mistérios divinais.


Nossos deuses exigem

E nós, vestidos de negro,

Com nossos turíbulos

Em formato de taça,

A vista baça,

Colhemos da caverna

O pássaro de veias quentes

Que se debate no peito.


Nossos deuses exigem,

Seja para a plantação,

Para os negócios

E casamentos.

Um coração,

Um princípio,

Uma perversão

Em oferecimento.


Exigem.

Cada vez mais sanguinolentos,

Corpos e crânios se amontoam

Enquanto nossos espíritos ficam saturados

E nossos passos mais lentos.


O sangue escorria pelas escadas como um rio. A jovem vinha de branco, coroada de lírios. A cerimônia era para o deus da chuva que espalhava gotas multicores pelo arco-íris. Tremeu como lebre quando viu a faca obsidiana, o cabo de pedrarias que lhe arrancaria o vestido, esfolaria sua pele como peça de seda. Com ela cobririam o altar da morte. A primavera chegava com seu manto vermelho de papoulas.

Que fusão profunda entre tradições indígenas (maias, astecas, zapotecas) e influências espanholas. Foi desde o dia em que o explorador espanhol Hernán Córtes aportou no México, em 1519. Ali reinava o trágico imperador Montezuma, líder absoluto dos astecas, sacerdote e guerreiro. Foi o encontro de dois mundos: o indígena e o europeu. O colapso de um império. Um choque.

O imperador Montezuma

Coloca sobre a cabeça

O cocar verde de plumas,

Entre a fumaça de incenso,

Tenta afastar os maus presságios:

Vira luzes estranhas na bruma,

Incêndios nos templos

E fora avisado

De que homens estranhos viajavam

Em navios de asas brancas

Sobre as espumas


O reino de Montezuma

Ruma para o fim,

Não adiantará aliar força e sabedoria

Contra um fantasma.


Montezuma,

Em transe,

Não oferece resistência

E a profecia se consuma.


O meu interesse pela história da conquista do México pelos espanhóis começou com as leituras e pesquisas sobre Antonin Artaud (1896-1948), o poeta e diretor de teatro francês. O gênio louco, delirante, internado em vários manicômios, castigado na memória, no corpo, no pensamento. Artaud, em 1936, fez uma viagem intensa, espiritual, transformadora, ao México. Uma passagem para entender sua própria obra. Queria afastar-se da Europa, que ele julgava decadente; alcançar formas que o colocassem em contato com o sagrado. Deu conferências na Universidade do México. Escreveu artigos. Viajou à Serra Tarahumara para viver entre o povo indígena, participando de rituais relacionados ao peyote, cacto alucinógeno que, segundo ele, abria percepções, revelava a ordem cósmica. Viveu uma experiência limite, física e mentalmente. Sofreu sérias rupturas interiores. Registrou suas impressões no livro “Os Tarahumaras”, um texto que mistura ensaio filosófico, narrativa mística, diário de viagem, poesia visionária, reflexão sobre o destino do homem moderno.

Daí me surgiu a ideia de escrever uma coletânea de poemas sobre a conquista do México pelos espanhóis, que denominei “Stella Maia”. Dediquei esse pequeno romanceiro a Antonin Artaud, “um homem em busca do estado poético e transcendente da vida, fascinado pelo sol, mobilizado pela imagem cênica do imperador asteca Montezuma e que elegeu o tema da conquista do México para o primeiro espetáculo de seu Teatro da Crueldade.”

Minha amiga está no México. Um momento de renascimento. Que haja montanhas, dança e fogo ao redor dela.

 
 
 

1 comentário

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Convidado:
15 de dez. de 2025

Texto maravilhoso!!! Parabéns, talentosíssima Raquel!!!

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