Texto/Poesia - José, meu avô marceneiro, por Raquel Naveira
- Alex Fraga

- 14 de nov. de 2024
- 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "José, meu avô marceneiro".
JOSÉ, MEU AVÔ MARCENEIRO
Raquel Naveira
Para José, o primogênito de uma família de imigrantes portugueses, radicados no sul de Mato Grosso, que sempre observava o trabalho da serraria, caiu como uma luva o ofício de marceneiro, carpinteiro.
Meu avô José teve muitos pontos em comum com o José bíblico, aquele a quem Maria foi prometida em casamento quando subitamente apareceu grávida de outro. Além da profissão, meu avô José foi um homem justo, discreto, que não suportava brigas, queixas ou escândalos. Assim como José aceitou sua mulher, a aceitação era outro traço de sua personalidade. Aceitar significa oferecer tudo- esperanças, tristezas, preocupações- a Deus, entregando cada batida do coração. A aceitação é a única fonte verdadeira de serenidade. Se não podia resolver um problema, aceitava o fato e esquecia. Gostava de ficar em casa, lendo livros e jornais, regando as plantas – orquídeas, bromélias e avencas- colocadas harmoniosamente em xaxins ao redor de uma imensa mangueira do quintal. Anjos lhe apareciam em sonho e diziam para que cuidasse de sua família, para que fugisse do Egito e de toda a sorte de ameaças e ele se levantava e obedecia em silêncio. Muito silêncio, interiorização, reflexão, distanciamento. Às vezes ele me parecia impenetrável, um jardim secreto. Mas havia um equilíbrio, uma alternância de estados de solidão e presença. Sua companhia era agradável e alegre em certos momentos. Eu sabia que seu silêncio era habitado, era uma atitude, era uma defesa. Era o silêncio da paciência, que sabe existir um tempo para falar e um tempo para calar. Silêncio da prudência, que pesa suas palavras e não emite julgamentos precipitados. Silêncio da compaixão, que demonstra mais por atos do que por palavras, uma afeição sincera para com alguém ferido no coração e na carne. Silêncio da humildade que reconhece os limites da razão, da inteligência humana e abre-se para outra luz. Um silêncio com qualidade de amor, acompanhado de delicadeza e tato. Enfim, meu avô José era um José.
O livro que o auxiliava em sua profissão de marceneiro era grosso, de páginas amarelas manuseadas, com desenhos feitos a bico de pena, ilustrando móveis de acordo com vários estilos de época. Meu avô era um artista. Confeccionava móveis com perfeição, móveis que ainda hoje estão em igrejas como a de Santo Antônio, clubes como o Rádio Clube, em várias casas de famílias tradicionais da cidade e espalhados pelas fazendas. Sua fábrica, com a loja na frente, chamava-se A Construtora e ficava na rua Dom Aquino 1806, naquele terreno onde havia uma jaqueira. Folheando o livro, lembrei-me das cadeiras de espaldar alto art nouveau em tons de verde-malva; das de madeira sólida, já com a estética moderna da era da máquina; das que tinham folhagens esculpidas, estofadas de couro e guarnecidas de tachas; das de pernas francesas viradas para fora; das elegantes espreguiçadeiras; dos conjuntos de sofá clássico com duas poltronas e escabelo para os pés. Havia também mesas com vernizes e incrustações, camas imponentes com engastes em ouropel, uma espécie de bronze folheado a ouro. Toda espécie de armários, balcões, estantes, guarda-louças, guarda-roupas, escrivaninhas de mogno e pau-rosa. De tudo, como espólio, restaram uma mesa de estilo francês com seis cadeiras, uma delas com a fotografia do político Dr. Ari escondida embaixo do assento e uma cristaleira que coloquei num canto da sala, com a sopeira, as taças e o bule de chá.
“Era uma casa portuguesa com certeza/ Pão e vinho sobre a mesa...”, cantarolo baixinho, acariciando o tampo da mesa de tantas lembranças. Escrevi o poema “Mesa”:
Em nossa casa
Havia uma certeza:
A mesa farta,
Sempre posta
Com arranjos de flores e framboesas.
Quando nos sentávamos
Ao redor da mesa,
Era festa,
Celebração,
A defesa de um pacto,
Um mistério feito de vinho
E provisão.
As faces ficavam acesas
Em volta da mesa,
Ninguém se sentia solitário,
Embora eu soubesse
Que breve,
Muito breve,
Cada um partiria para sua missão.
Prepara-me uma mesa
Como fortaleza,
Como vitória
Sobre quem me despreza,
Dá-me o banquete
Da minha salvação.





Que texto lindo! Parabéns, talentosíssima Raquel!
Lindo texto! Quanta importância tem uma mesa! E ainda mais quando fabricada eadornada por um avô. Parabéns amiga Raquel!
Lindo esse poema me trouxe a memória a casa dos seus avós.
Excelente texto da Raquel Naveira, bela analogia, belo poema. Quando se ama seus entes tudo fica mais fácil de se produzir!
Raquel, a Bíblia é farta em histórias inspiradoras para nossa vida e para nossa produção literária. Isso você aproveita muito bem. Grande abraço.