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Texto/Poesia - Habitado, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Habitado".


HABITADO

Raquel Naveira


Como é rica, sugestiva e musical a lírica amorosa de Camões (1524?-1580). Ele nos traz as pérolas mais acetinadas, recamadas de nácar e significados. Um dos sonetos que mais aprecio é o que começa assim: “Transforma-se o amador na cousa amada,/ Por virtude do muito imaginar,/ Não tenho logo mais que desejar,/ pois em mim tenho a parte desejada.” Que fusão espiritual! Aquele que ama vai se transformando no ser amado, porque pensa nele o tempo todo. Imagina com força como seria estar na sua presença física. Cria uma figura ideal, iluminada e a incorpora dentro de si. É um ato de elevação interior que o faz viver no outro e para o outro. Há uma perda de fronteiras, identidades borradas, experiência de transcendência, busca de um relacionamento sublime e perfeito.

Isso fica claro no verso: “Nela está minha alma transformada,/ Que mais deseja o corpo alcançar?” A amada é “linda e pura semideia”, que domina a mente do amante. Forte a influência da visão platônica, que toca o reino das ideias, pois “ideias vivem apenas no pensamento.” A matéria simplesmente procura tomar a forma concreta, visível, palpável, do pensamento. Vira realidade. Ela é mulher; ele, poeta.

Louvemos o Amor. Louvar é elogiar, reconhecer qualidades, celebrar virtudes, manifestar admiração. Louvemos porque é bom louvar. Como louvar? Com canções, instrumentos de música, com entrega e reverência, com abertura para o mistério. Inclino-me e contemplo intensamente o Amado. Ele é fascinante. Tem corpo. É belo. Seu perfume é de jardim, de vinho e de frutos. Falamos a mesma língua, com intimidade. Brilho de amor por ele. Imaginei-o tanto, tanto, que ele habita em mim. Escrevi, então, o poema “Habitado”:


Tu me habitas

Como uma lâmpada acesa,

Um coração,

Um pássaro

E se ardo,

Palpito

E canto

É porque estou em ti

E estás em mim.


Tu me habitas

Como um sopro,

Uma seiva,

Um segredo

E se arfo,

Floresço

E calo

É porque estás em mim

E estou em ti.


De tanto amá-lo

Transformo-me em ti

E em mim mesma,

Obedeço a uma realidade

Que me habita,

Rio subterrâneo

Que corre em minhas profundezas.

 
 
 

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