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Texto/Poesia - Fada e Feiticeira, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 27 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "Fada e Feiticeira"


FADA E FEITICEIRA

Raquel Naveira


O seriado americano A Feiticeira marcou minha infância. As peripécias de Samantha, a bruxinha boa e James Stephens, um publicitário promissor, que se casaram e tiveram dois filhos, Tabatha e Adam, era o meu programa favorito na TV. Samantha, ao se unir a um simples mortal, promete abandonar a vida de mágicas desencadeadas pelo gesto de torcer o seu poderoso nariz. Promete, mas não consegue cumprir, porque está sempre envolta em confusões com os vizinhos bisbilhoteiros, a mãe que repudia seu casamento e os parentes malucos.

Elizabeth Montgomery, atriz que interpreta a feiticeira, nasceu numa família de artistas e faleceu dormindo em 1995, oito dias depois de ter descoberto que era portadora de um câncer de pulmão. Ao ler a notícia de sua morte no jornal, minha irmã Rita emocionou-se e chorou. Era nostalgia, era saudade de um sonho de amor, de felicidade e de calor no ninho que Samantha representava. No filme, ela era uma mulher bela e bondosa, que se desdobrava para cuidar da casa e da família, colocando sempre panos quentes nos conflitos. Era, ao mesmo tempo, uma feiticeira e uma fada.

Talvez seja isso: fada e feiticeira são apenas lados da mesma moeda. Nós, mulheres, temos ligações com as forças ocultas e com os espíritos. Se não assumimos essas forças à luz do conhecimento dos sentimentos, a feiticeira continua a viver em nós. Feiticeira, fada, maga druídica, sacerdotisa, sibila são todas criaturas do inconsciente, filhas de uma longa história registrada em nossa psique.

A transformação de uma feiticeira em fada se passa no nosso interior, com uma atitude positiva em relação ao mundo dos símbolos, com uma luta pela integração de nossa personalidade, expulsando os recalques, os traumas, os temores, as tendências egoístas. A fada é portadora dos perfumes e das essências aromáticas, como a mulher que no evangelho ungiu os pés do Cristo. Visualiza-se na fada o eterno feminino, o potencial afetivo, a energia luminosa e casta, o ideal de coragem e bondade, capaz de mudar os destinos e a estrela da sorte.

Samantha fica nesse limiar dúbio entre fada e feiticeira. É muito feminina nas suas intuições, na sua sensibilidade e, principalmente, na sua capacidade de amar e defender o seu homem e a sua prole. Será, no entanto, perigoso, obra de engano, embuste diabólico, confundir uma face de trevas com uma face atraente? Samantha será mesmo inofensiva? Poderá, de repente, usar os poderes de sua natureza intrínseca para provocar o mal? A quem ela serve? Quem ou como domina a sua vontade?

Tive sonhos de ser uma fada e escrevi este poema:


Amava e era amada,

Sentia-me fada,

Tinha uma varinha de condão

Capaz de transformar fios de palha

Em ouro.


Meu poder era sobrenatural,

Feito de encanto e beleza,

Ao mínimo gesto

Desfazia todo mal.


Quanta magia

No meu destino de fada!

A bondade era chuva

Que escorria cristal

Na madrugada.


Quanta força

Na minha crença de fada!

Bastava uma palavra

Ou um silêncio:

Rosa iluminada.


Dor,

Miséria,

Tragédia

Traduzidas em lágrimas

Banhavam de pureza

Meu coração de fada.


Nem a certeza do inferno,

Nem as agruras da vida

Esmoreciam

Minha têmpera de fada.


Até que um dia,

Um homem,

Um cisne triste,

Uma criança tola

Arrancou-me véu e varinha,

Deixou-me desarmada,

Gelada de pavor,

Num mundo sem lugar

Para minha ingenuidade de fada.


*

Permaneço atenta para não despertar dentro de mim a feiticeira.

 
 
 

1 comentário

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Sidnei Manoel Ferreira
28 de mar. de 2025

Belo texto. Parabéns, talentosíssima Raquel!

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