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Texto/Poesia - Anúbis, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 11 de set.
  • 2 min de leitura
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Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto poético com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com Anúbis, Raquel Naveira.


ANÚBIS

Raquel Naveira


Estou encantada por esse cachorro negro, magro como um galgo, de olhar terno, que alegra meu filho com sua companhia.

É uma questão de afeto, de carinho e apego. Houve uma troca psíquica instantânea entre nós. Agradeço o bem-estar que ele gera no ambiente, a intimidade e o apoio emocional de tê-lo por perto.

Quando o vi deitado, vigilante, o corpo estendido, as longas patas, a cabeça erguida, as orelhas em riste, veio-me imediatamente a imagem da estátua do deus egípcio Anúbis, encontrada no túmulo de Tutancâmon, no Vale dos Reis. Um chacal esculpido em madeira pintada de preto, com detalhes em folhas de ouro no interior das orelhas, nas sobrancelhas, no colar em volta do pescoço. As garras são de prata polida. Os olhos, feitos de quartzo e as pupilas em obsidiana, nos observam com frieza e severidade. Uma visão de sentinela, que penetra o invisível, que adentrou os mistérios da morte, através dos séculos. A estátua, que ficava sobre um santuário portátil, bem na entrada da câmara funerária, protegia o repouso eterno do jovem faraó. Essa joia estava coberta por um tecido fino de linho, um véu de gaze bordado com flores de lótus e íris perfumada.

Anúbis era representado como homem com cabeça de chacal ou cão selvagem de cor negra. Era o deus da mumificação. Acompanhava o sacerdote no sagrado processo de embalsamento dos corpos. Arrancava as vísceras do cadáver e as colocava em vasos de alabastro. Pesava o coração na balança da Verdade. Se o coração fosse leve, a alma poderia seguir viagem para um lugar de brilho, como as águas férteis e pesadas do rio Nilo, ora refletindo o sol, ora a lua e as estrelas.

Esse cão negro é guardião desta casa. Nós somos o seu rebanho. Nele há fidelidade e companheirismo. É um ser puro, que habita fronteiras entre mundos. Nesse clima de volta ao fascinante Egito Antigo, escrevi:


Meu corpo tem que sobreviver,

A qualquer custo,

Para que eu possa gozar no outro mundo

As recompensas de um justo.


Removerão meu cérebro,

Pulmões e vísceras,

Mergulharei num banho de sal.


O sacerdote

Com máscara de chacal

Do deus Anúbis

Fará uma oração

Que me livrará do mal.


Nunca em vida

Parecerei tão natural:

O rosto pintado,

O cabelo arrumado em espiral.


Serei uma múmia

Coberta de amuletos,

Recheada de sonhos,

Atravessando o portal.

 
 
 

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16 de set.

Mais um texto extraordinário de Raquel Naveiras!

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