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Texto/Poesia - A Odisseia: o Poema e o Filme, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 23 de jul.
  • 3 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/poesia com a poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "A Odisseia: o Poema e o Filme


A ODISSEIA: O POEMA E O FILME

Raquel Naveira


A autoria da Odisseia, poema épico fundador da literatura ocidental, é atribuída ao poeta Homero, da Grécia Antiga (928 a. C.- 898 a. C). Há muitas polêmicas sobre sua real existência histórica, mas ele é a personificão coletiva de toda a memória dos gregos, a culminância de séculos de histórias contadas oralmente.

A Odisseia narra a perigosa jornada de dez anos do herói Odisseu, também conhecido como Ulisses, para retornar à sua casa na ilha de Ítaca, após a guerra de Tróia, enquanto sua esposa, Penélope, resiste aos pretendentes estrangeiros que não desejavam somente o seu amor, mas o poder de seu reino. Penélope não é ingênua. Ela tem um pensamento político. Não quer entregar o governo a estranhos, que, certamente, matariam o seu filho, Telêmaco. E assim, bordando um sudário, aguarda a chegada improvável de seu amado Odisseu.

A partir dessa história, “odisseia” passa a ser sinônimo de travessia longa, cheia de aventuras, provações, percalços, perigos. O homem atirado ao mar da vida, enfrentando ciladas, tempestades noturnas, contando exclusivamente com sua inteligência e astúcia. Visando o seu autoconhecimento. Alcançando o fundo de sua consciência.

A Odisseia continua inspirando o cinema contemporâneo. O filme “A Odisseia” de Christopher Nolan (1970), diretor, roteirista e produtor britânico, é grandioso, bárbaro, melancólico. Odisseu é interpretado com força contida por Matt Damon; Anne Hathaway é uma altiva Penélope e Tom Holland, um jovem atordoado e confuso Telêmaco, em busca de sua identidade. Mas a maior controvérsia é uma Helena de Tróia negra, encarnada na pele luzidia de Lupita Nyong’o. Surge o debate: Helena sempre foi mostrada com pele e cabelos claros. Homero não a descreve fisicamente em detalhes. Deixa que cada leitor imagine o seu ideal de beleza. Uma Helena negra revelaria a presença de etíopes entre os gregos. Uma deusa de ébano incorporando as trágicas irmãs gêmeas, Helena e Clitemnestra, esposa vingativa de Agamenon. A pesquisa, no entanto, remete ao fato de que Helena era prima de Penélope. Christopher Nolan deu um toque ousado e poético com essa escolha.

Os cenários são reais, locações espalhadas pela Europa e Norte da África. E todas as fabulosas fantasias transpondo a realidade para o plano místico estão lá: os furacões que inundam e partem os navios ao meio; sereias sedutoras e fatais, com suas vozes que puxam os viajantes para a morte; ninfas que tentam manter Odisseu prisioneiro, como Calipso, ofertando-lhe a flor azul e alucinógena de lótus; Circe, a feiticeira envelhecida no ódio e na maldade, horrenda, arrancando com as próprias mãos os espíritos de porcos encravados nos homens; a alma do advinho Tirésias, entre zumbis bebedores de sangue. Odisseu guerreiro, de instinto prático, indomável, estrategista, artesão, criatura e criador, capaz de tecer redes, de moldar armas e reconstruir navios.

Sufocando sua emoção ao rever Penélope, Odisseu usa de um ardil para combater os famigerados pretendentes instalados no seu palácio. Entra no território inimigo disfarçado de mendigo. Evita o peito aberto. Infiltra-se. Luta corpo a corpo. O final é feliz. Penélope e Odisseu embarcando num navio rumo ao sol poente. O eterno convívio do grego com o mar. Com a sede de expansão do sonho de alargamento de fronteiras geográficas e psíquicas.

Um filme como “A Odisseia” faz repensar a necessidade de nos arremessarmos ao desconhecido, aos mares e ao espaço, com coragem e espernça. Algo extraordinário, potente. A luta contra o fatalismo do Destino, tendo a razão como única bússola.

Pensando em Odisseu, escrevi um poema erótico, na voz de uma sereia:


Vem, Odisseu,

Detém teu barco,

Sou sereia sedutora,

Sirena suave

Que atrai para o abismo.


Vem, meu navegante,

Para a minha caverna,

Minha gruta secreta

Onde te devoro

E te encanto.


Vem, meu bravo,

Venceste Tróia

Com tua astúcia,

Descansa em minha ilha,

Entre penhascos negros

E precipícios de espumas.


Vem,

Sou sereia,

Cauda de peixe,

Toda vulva,

Estranho molusco

Que te descarna

E te sepulta

Nos baixios do mar.

 
 
 

2 comentários

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Convidado:
25 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Belo texto! Parabéns, talentosíssima Raquel Naveira!

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Convidado:
24 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

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