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Texto Poético - Mãe, por Paulo Portuga

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 29 de abr.
  • 4 min de leitura

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto poético com o professor, músico, poeta e compositor de Dourados (MS), Paulo Portuga, com "Mãe".


MÃE


São tantas as palavras que podemos usar para escrever nosso sentimento pela mãe da gente, que até fica difícil começar com algumas delas em detrimento de outras. Mãe é um ser tão sublime por ser mulher e por gerar outro indivíduo, que todo o resto parece não ter importância. Vou te contar um pouco sobre a minha mãe - dona Carmem Cecília.

Ela é filha de imigrantes italianos, nasceu em Pitangueiras – SP, no ano de 1945. Me disse, por várias vezes, na mesa do café, que teve uma boa infância e foi uma boa filha. Que nunca faltou comida e acolhida. Seu pai era ferroviário e sua mãe do lar. Seu pai, João, era muito inteligente, lia muito, era espírita nos anos 50 e sofria muito preconceito religioso, a ponto de ter vários livros encapados com o mesmo papel na biblioteca para esconder as capas dos mais curiosos e evitar comentários preconceituosos. Carmem sofreu um pouco com isso: com o radicalismo religioso de seu pai.

Sua mãe, Angelina, foi uma mulher séria, um pouco sisuda, de temperamento forte, que criou outros três filhos com parcimônia, e dedicação, evitando desperdícios e exageros num mundo pós-guerra. Angelina, mais tarde, depois de muito tempo viúva, acabou vivendo na casa de sua filha e genro até os últimos dias de sua vida.

Carmem não aprofundou muito os estudos, o que fez depois de adulta. Casou-se cedo e foi morar em Jaú, interior de São Paulo, longe do restante da família e teve que se virar sozinha. Teve dois filhos que deram bastante trabalho e ocuparam boa parte do tempo da sua vida. Cuidava da casa, dos filhos, limpava, cozinhava, alimentava, cortava o cabelo dos filhos, fazia roupas, blusas de frio e ainda fazia seu artesanato em tricô e crochê.

Em 1977, mudou-se para Campo Grande no antigo Mato Grosso. Depois mudou-se para Cuiabá, Dourados e Mundo Novo na metade dos anos 80. Sofreu bastante acompanhando o marido e tendo que se adaptar em novas cidades, sempre tendo que reconstruir sua teia social. Aprendeu muito com isso, é verdade. Depois de 20 anos, retornou para São Paulo e foi morar perto de sua irmã em Itu.

Foi em 1985 que eu e minha mãe nos separamos. Eu entrei na universidade no curso de geografia em Dourados e não pude mais acompanhar a família quando se mudaram para Mundo Novo – MS. Foram anos difíceis para mim e para ela. Ficamos separados por longos 40 anos, vivendo um longe do outro e só nos víamos uma ou duas vezes ao ano durante as férias escolares.

Ela seguiu trabalhando. Sem nenhuma experiência no ramo, trabalhou numa casa frios sendo proprietária e funcionária. Conseguiu com sua simpatia uma grande clientela, proporcionando uma boa qualidade de vida. Também cuidou do seu marido até ele acabou morrendo muito cedo, no final dos anos 90, ficando viúva até os dias de hoje.

Carmem seguiu em frente. Cuidou de sua mãe até o final. Depois de algum tempo foi morar junto com sua irmã, também viúva. Se dedicou ao artesanato e ajudou muita gente através de ações solidárias. Ela sempre foi e é uma mulher de fibra. Sensível, alegre e cozinheira de mão cheia. Ela sempre tem uma conversa pronta na ponta da língua de histórias que ouviu e viveu.

Nos anos 2000, sofreu algum tempo com um câncer que a debilitou bastante. Resolveu com muita esperança e quimioterapia. É diabética, toma insulina todos os dias e tem um probleminha no coração. Mas adora um açúcar e não faz exercícios para o corpo, só para a mente. Lê muito e faz seu crochê sem precisar de muitas instruções.

Ano passado, ela sofreu bastante com a saúde. Foi internada duas vezes e quase morreu. Pegou dengue, pneumonia e uma infecção urinária que a derrubou na cama. Pensei que ela iria nos deixar. Foi bem cuidada, mas algumas sequelas ficaram, principalmente depois do câncer. Ela luta pela vida e nos dá o exemplo de seguirmos em frente com a vida.

Agora ela vive um tempo em São Paulo e outro tempo comigo aqui em Dourados. Preparei um espaço todo adaptado para recebê-la. Ela acorda cedo, faz seu café, prepara o almoço, assiste suas novelas, filmes e seriados, sempre com agulhas e linhas em suas mãos. Devolve vida à casa. Quando chego da escola está tudo pronto e delicioso. Ela gosta de uma boa comida. Durante as refeições conversamos um pouco onde ela conta de seu passado com seus pais e irmãos.

Eu estou aprendendo muito com suas histórias. Coisas que eu não sabia e não lembrava. Ela tem quatro netos e dois bisnetos que a amam. Carmem tem uma história simples como a de muitas mulheres deste mundo. Carmem é uma guerreira, um exemplo, quase um anjo que está sempre pronta para nos confortar. Tenho muito orgulho de ser seu filho. Grande parte do que eu sou agora, foi graças a ela que me ensinou caminhos corretos na vida.

Dona Carmem pulsa afeto, memória e gratidão. Não é só um retrato de minha mãe, mas de uma geração inteira de mulheres que sustentam famílias inteiras quase sempre em silêncio.

Mãe, três letrinhas com tanto significado. Mãe de amor. Mãe mulher cuja nobreza não vem do seu berço, mas de seus atos. Te amo agora e sempre.


Paulo Portuga, 28/04/20

 
 
 

2 comentários

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Orlando
29 de abr.
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Parabéns

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29 de abr.
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Felicidades e longa vida pra sua mãe.

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