Texto poético - (Des) Memórias de um amazonense
- Alex Fraga

- 29 de jun.
- 2 min de leitura

Segunda-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto poético do professor universitário, poeta e escritor de Campo Grane (MS), Isaac Ramos, com (Des) Memórias de um amazonense"
(DES)MEMÓRIAS DE UM AMAZONENSE
(Isaac Ramos)
O dique se sustenta pelo imaginário. Sombras de água agitam o movimento do rufar dos pássaros do passado revoado. Ontem e hoje marcas do silêncio são derrubadas centímetro a centímetro. O contador das horas registra o movimento do Rio Negro que se afasta e se cala perante a pororoca. Troças de pescador traz para o barco todo tipo de peixes. Jaraquis, tambaquis, pacuzinhos e pirarucus ornamentam as mesas dos amazonenses. Milagre dos peixes (penso em Vieira). São desensinamentos feitos por pessoas, barros e thiagos de mello que servem para encher-nos de espírito ribeirinho. Lembro-me do rio de Caeiro, cujo rio passava atrás de uma aldeia.
E minha aldeia é Tabatinga, cidade que consta nos meus registros, mas cuja memória não me reconheço. Conheço melhor a imagem de uma cobra de vidro que está presente em poema de Barros. Por sinal, não falta barro nem lama para saciar a fama de devorador de mitos que o Amazonas tem. Quantos turistas sucumbiram à tua beleza natural! Quantas amazonas percorrem tuas matas! Índias e cunhaporãs se misturam no imaginário do caboclo e do turista aprendiz (como diz o título de um livro de Drummond). A passo largo a Zona Franca vive do seu passado. Nenhum pombo correio trouxe a nova para os manauaras. A enchente é instante revolto. A notícia é estanque. As águas um dia farão parte das estantes físicas e já estão nas janelas virtuais das redes sociais.
Gostaria de poder me lembrar dos primeiros meses de nascimento em Tabatinga. Porém, minha memória discursiva não consegue puxar essa lembrança. Sei apenas que a casa onde nasci há muito foi engolida pelas águas do Solimões. São tantos fragmentos que devo ter perdido e que, possivelmente, foram levados pelas inúmeras enchentes que não vivi. Todavia, no meu coração de poeta bate um ritmo forte nativo.
As águas profundas do Amazonas, Negro e Solimões me afogam as lembranças. Serpenteiam os contornos da imaginação e faz-me submergir em ocas de silêncio. Abro janelas para a inquietação. Em todas elas vislumbro nuvens claras, preclaras e escuras. Não nego. Sou fruto dessas águas - iaras em seu tempo - e espalho sementes de vento. Entretanto, meu corpo não se contém em diques. Antes prefere passarelas urbanas no cerrado ou, se possível, o agradável contato com a maresia. Mesmo assim, no meu corpo, canto e conto vislumbram palafitas. Meus olhos azulejam no horizonte das enchentes. Essas trazem à tona desejos e dejetos que o meu silêncio amazonense não consegue esconder.
(Do livro TEIAS E TEARES, 2014)





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