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Texto - O guizo no pescoço do gato, por Rogério Fernandes Lemes



Domingo no Blog do Alex Fraga é dia de texto do poeta e escritor de Dourados (MS), Rogério Fernandes Lemes, com O guizo no pescoço do gato


O guizo no pescoço do gato Rogério Fernandes Lemes


O período de vida de uma pessoa, em média 73,7 anos, é um grande aprendizado. Ou pelo menos deveria ser. Esse período é dividido em fases que oscilam de acordo com o aprendizado da pessoa. O fato é que, durante toda a vida, as pessoas vivem suas vidas envoltas em necessidades e demandas, sejam elas fisiológicas, psicológicas, econômicas ou emocionais. Resolver os problemas que aparecem no decorrer da vida é um grande mistério, pois cada pessoa recebe e reage de uma forma peculiar, diferente de outros comportamentos. Se fôssemos tentados a classificar o gênero humano, poderíamos especificá-lo em três grupos distintos: as pessoas de ação, aquelas pessoas que apenas observam e as que perguntam, indiferentes, sobre o que aconteceu. E por falar em problemas e dificuldades da vida ou sobre as fases da vida de uma pessoa, talvez fosse interessante pensarmos como um jovem agiria diante de uma situação de injustiça. Poderia ele sair depressa em defesa do mais fraco, ou tomar para si as dores e cometer algo mais grave? Uma pessoa de média idade, talvez, refletisse primeiro sobre as possíveis consequências decorrentes dos seus atos. Ou ainda, uma pessoa da melhor idade, olharia e, de forma sensata e segura, orientaria sobre a melhor maneira, ou a mais razoável, na resolução de um litígio. Seja como for, o fato é que nunca estamos preparados para lidarmos com nossas frustrações, sejam elas pela decepção de pessoas que admiramos ou, quando somos confrontados por argumentos superficiais ou mesmo dissidentes. Difícil mesmo é encontrar um ser humano comedido diante de possíveis ataques gratuitos, ataques estes muito comuns no contemporâneo ou na chamada pós-modernidade. Já dizia o velho Bauman sobre a banalidade da vida, sobre a ausência de referenciais de justiça e nobreza, ou ainda sobre a predileção humana pelo efêmero e tudo aquilo que o satisfaça suas vontades de forma imediata. É comum ouvirmos das pessoas mais velhas sobre os tempos passados. Ainda hoje, em uma roda de conversa com pessoas atendidas sobre o uso e abuso de álcool e outras drogas, uma senhora disse, carregada de saudades, o seguinte: “a gente era feliz e não sabia, meu fio”. Diante dessas dificuldades que enfrentamos, no decorrer de nossas vidas, uma fábula de Jean de La Fontaine exemplifica, com maestria, as atitudes das pessoas diante de um grande problema. Conta-se que há muito tempo, um grupo de roedores reuniu-se em assembleia para deliberarem sobre um perigo mortal que afetava a todos. Eles tinham consciência não apenas de que o mortal problema era o gato, mas principalmente, a desvantagem que tinham em relação aos ataques-surpresa. Estavam convictos de que se pudessem ouvi-lo se aproximar teriam uma chance de escaparem ilesos. Então um daqueles ratos, do grupo dos que apenas sugerem soluções rápidas, afirmou que o ideal seria colocar o inimigo em desvantagem. Para isso, um objeto barulhento deveria ser afixado ao pescoço do bichano. A assembleia recebeu a sugestão com alegrias e delírio da ratadela. Um rato do terceiro grupo, que até então apenas ouvia as divagações de desespero dos mais jovens levantou-se, com dificuldades, e pediu a palavra. Calmamente foi ao âmago da questão. Perguntou quem teria a coragem de colocar o guizo no pescoço do inimigo. Um silêncio sepulcral tomou conta do esgoto. Em outras palavras, concluiu o velho rato, não é difícil propor soluções ou fazer juízos de valor sobre as pessoas e suas ações, difícil mesmo é a efetividade das elucubrações. O equilíbrio nas emoções vem com o tempo, junto às cicatrizes das traições; da falta de hombridade das pessoas que admiramos; da miserável condição humana encharcada por seus desejos e interesses mesquinhos. Compreender que nenhuma pessoa pode dar aquilo que ela não tem é uma forma prudente de ouvir os passos do inimigo silencioso, a inveja. Se o mal vê o bem como um gato silencioso, não significa que poderá vencê-lo. O silêncio sempre foi uma arma poderosa na mão dos sábios, pois eles sabem que, mais cedo ou mais tarde, a covardia dos néscios será sua própria condenação e que, principalmente, nada ficará ocultado.


_In: “Eu conto para não morrer comigo”. Biblio Editora, 2021._


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Guest
Oct 30, 2023
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Parabéns

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