Texto - Crianças em Perigo, por Raquel Naveira


Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com Crianças em Perigo
CRIANÇAS EM PERIGO
Raquel Naveira
As crianças sempre estiveram em perigo. Sempre. A história da humanidade é bem indigesta.
Na Antiguidade, os sacrifícios de crianças ao deus Moloque eram constantes. Há relatos sombrios que geram debates profundos entre historiadores, arqueólogos e teólogos. Moloque era uma divindade adorada por povos cananeus e fenícios. Uma enorme estátua de bronze com cabeça de touro e braços estendidos. O interior da estátua era preenchido com fogo até que o metal ficasse incandescente. Os recém-nascidos eram colocados no colo da estátua, de onde escorregavam para dentro da fornalha. Os sacerdotes batiam os tambores. Gritos sufocados. Ordens de comando: esta criança é oferta para que acabe a guerra; a outra para que a seca e a sede cessem; a maiorzinha para que os deuses mudem a sorte da nação. E assim as pessoas passavam os próprios filhos pelo fogo.
Mais tarde, dois irmãos escritores e linguistas, os famosos alemães Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) Grimm, os irmãos Grimm, recolheram e registraram contos de fadas tradicionais que o povo narrava oralmente desde a Idade Média. Adaptaram para o público infantil contos que se tornaram obras clássicas da literatura mundial como “Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve”, “Cinderela”, “João e Maria”, “Rapunzel” e “A Bela Adormecida”. Em todos eles as crianças estão em perigo; envolvidas por conflitos familiares; sob a mira de madrastas, padrastos, mães ausentes, pais fracos; correndo risco de morte. São histórias horripilantes, de violência extrema, de tentativa de assassinato, de infanticídio, em cenários de crise, pobreza, que despertaram a crueldade humana.
Em “João e Maria”, por exemplo, diante de uma grande fome, a mãe-madrasta, convence o pai a abandonar os dois filhos na floresta, poupando recursos do casal. As crianças encontram uma casa de doces habitada por uma bruxa que os trancafia numa gaiola e os engorda como ratos para o abate.
A mãe-madrasta da Branca de Neve, movida por inveja e vaidade, ordena que um caçador mate a moça e traga seus pulmões e fígado para comê-los com sal. O caçador, tomado de compaixão, engana a rainha levando os órgãos de um animal. Branca de Neve embrenha-se na escuridão.
Cinderela foi enjeitada pela madrasta, que era viúva de seu pai e que tinha duas filhas do seu primeiro casamento. Vivia suja, fazendo o trabalho doméstico, dormindo nas cinzas do borralho.
Chapeuzinho Vermelho resolve visitar a avó por um caminho desconhecido. Vai até a casa onde o lobo deitara-se na cama, fingindo ser a avó, pronto para devorar a menina com seus dentes pontiagudos.
Em “A Videira do Junípero”, conto menos conhecido da coletânea, a madrasta decapita o enteado ao fechar com força a tampa de um baú de maçãs. Para esconder o
crime, amarra a cabeça do menino ao corpo com um lenço. Faz do corpo do garoto um ensopado que é servido e comido pelo próprio pai da criança. A meia-irmã enterra os ossos do menino sob uma árvore cheia de bagas roxas de zimbro. Ele renasce como pássaro, mata a madrasta e volta à vida como ser humano.
Muito sangue e sofrimento nessas histórias fantásticas e brutais dos irmãos Grimm, que tocam as almas e desvelam os medos mais profundos.
A sociedade moderna é um deserto habitado por bestas selvagens. A todo tempo chegam notícias terríveis: mãe que mata o filho logo após o parto, ainda sob a influência do estado puerperal. Bebês carbonizados. Placentas em meio a entulhos. Crianças jogadas pela janela dos prédios. Fetos em caçambas de lixo. Crianças utilizadas como cobaias em laboratórios. Rasgadas por bisturis em experimentos científicos. Avolumam-se os casos de comoção nacional envolvendo maus-tratos, envenenamentos e abusos. Lesões, traumatismos, torturas provocadas por padrastos sinistros. Mães omissas, coniventes, negligentes. Perpétuos tormentos impostos a frágeis crianças.
Crianças... como é perigoso o mundo. Suplico, suplico por anjos que as protejam.





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