Texto - Chica da Silva e suas várias versões, por Raquel Naveira


Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto/ensaio com a poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com Chica da Silva e suas várias versões,
CHICA DA SILVA E SUAS VÁRIAS VERSÕES
Raquel Naveira
Como ocorre o processo cultural que transforma a história de uma pessoa em mito? Até que ponto a realidade é substituída por narrativas fantasiosas e exageradas? Foi o que aconteceu com Francisca da Silva Oliveira (1732-1796), a Chica da Silva. Chica tornou-se símbolo da sociedade colonial brasileira marcada pela escravidão, pela riqueza dos diamantes que brilhavam no fundo dos rios, pelas complexas questões sociais e raciais do século XVIII.
Chica nasceu no arraial do Milho Verde, em Minas Gerais. Filha de um homem branco, de origem portuguesa, Antônio Caetano de Sá e de Maria da Costa, africana da Costa Mina. Escravizada, Chica pertencia ao médico português, Manuel Pires Sardinha, proprietário de lavras de ouro, no arraial do Tijuco. Teve com ele um filho, Simão Pires Sardinha (1751). Depois foi comprada por João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes do Arraial do Tijuco, atual Diamantina. Com ele viveu em concubinato por cerca de 15 anos e tiveram 13 filhos.
A riqueza e alta posição de João Fernandes permitiram a Chica uma vida de fausto e luxo. De acesso a espaços só frequentados pela elite branca. Após a partida de João Fernandes para Portugal, Chica permaneceu em Diamantina, no belo casarão que João Fernandes construíra para ela. Foi sepultada na igreja de São Francisco de Assis, cercada de respeito e prestígio.
João Fernandes levou alguns de seus filhos homens para Portugal, onde receberam educação superior e ocuparam cargos importantes. Chica ficou com o filho mais novo e com as filhas. As meninas foram levadas ao convento de Macaúbas, onde receberam a melhor formação para a época. Chica, mulher de seu tempo, ficou amparada, em situação financeira confortável, rodeada por mais de cem escravos que cuidavam dos serviços domésticos ou eram alugados para o trabalho nas minas. Chica não exerceu papel de redentora, nem há registro de que tenha concedido liberdade aos seus escravizados.
Depois de sua morte, tornou-se desconhecida. No entanto, corriam na região histórias orais sobre o auge de seu quase reinado no Tijuco. O jornalista, político e advogado da família de Chica, Joaquim Felício dos Santos (1828-1895), foi o primeiro a registrar por escrito a história de Chica da Silva, em capítulos publicados no jornal “O Jequitinhonha”. O material foi reunido num livro intitulado “Memórias do Distrito Diamantino”, em 1868. A seguir, em 2003, a professora e historiadora mineira, Júnia Ferreira Furtado (1960), lançou seu estudo “Chica da Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito”, editora Companhia das Letras. Júnia reconstruiu documentalmente a personagem lendária e desmontou o mito de uma Chica da Silva extravagante e fatal.
Em 1953, foi publicado o “Romanceiro da Inconfidência”, da poetisa carioca, Cecília Meireles (1901-1964), pela editora José Olympio. É uma obra épica, uma das mais importantes da poesia brasileira do século XX. Recria poeticamente a Inconfidência Mineira, ocorrida em 1789, com destaque para figuras como Tiradentes, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Chica da Silva. Romanceiro... uma coleção de
poemas narrativos, um cancioneiro popular. Inconfidência... falta de lealdade, de fé, de fidelidade ao Estado, a um governo, a um soberano. Traição à rainha Maria I, a Louca de Portugal. Mesmo depois de tantos anos, a leitura desse Romanceiro é muito forte e dramática.
Cecília dedica vários “romances” ou “cantos” a Chica da Silva como o “Romance XIV ou da Chica da Silva”, em que nos apresenta a personagem:
“Que andor se atavia
Naquela varanda?
É a Chica da Silva:
É a Chica-que-manda!
Cara cor da noite,
Olhos cor de estrela,
Vem gente de longe
Para conhecê-la.
Escravas, mordomos
Seguem, como um rio,
A dona do dono
Do Serro frio.
(Doze negras em redor,
- como as horas, nos relógios.
Ela, no meio, era o sol!)”
No Romance XV ou “Das Cismas da Chica da Silva”, aparece uma figura dúbia e traidora, o Conde Valadares, enviado de Portugal para fiscalizar o trabalho do contratador João Fernandes. Chica fareja o perigo:
“Na sua cama dourada,
Chica da Silva não dorme.
Pensa nas falas do Conde,
Pensa no ouro, e desta sorte
Aconselha a João Fernandes:
_Hoje todo o mundo corre,
Senhor, atrás de riquezas:
nem é doutro mal que sofre
esse vosso falso amigo,
esse Conde de má morte.
Quem sabe o que o traz tão longe?
Quais serão as suas ordens?”
Confirma-se o mau pressentimento de Chica no “Romance XVI ou Da Traição do Conde”:
“Oxalá não traga o próprio
Más novidades da Vila.
Tenho o coração parado
Como se não fosse viva.
Que este maroto, do Reino
Ao Tejuco, não viria,
Senão por algum segredo,
Por alguma fina intriga.”
Ela chora e suspira, maldiz o conde, a febre do ouro, as sentenças injustas no “Romance XVII ou Das Lamentações no Tejuco”:
“(Doze mucamas em volta
Gemiam com surda pena.
Pranto e diamantes caídos
Era tudo um mar de estrelas.”)
No “Romance XVIII ou Dos Velhos do Tejuco”, a poeta vislumbra que chegará o dia em que todos perguntariam:
“Quem foi a Chica da Silva, que viveu neste lugar?”
E finaliza com o “Romance XIX ou dos Maus Presságios”:
“Acabou-se aquele tempo
do contratador Fernandes.
Onde estais, Chica da Silva,
Cravejada de brilhantes?”
Passemos ao ano de 1963. A escola Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro, transformou a vida de Chica da Silva em samba-enredo. O desfile apostou em muito luxo, cenários de igrejas barrocas, perucas brancas, saiotes de seda deslizando pela avenida. O impacto visual foi criado pelo carnavalesco Arlindo Rodrigues. A mesma escola trará o tema Chica da Silva, no ano de 2027. “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da História”. A letra assinada por Jorge Silveira e Leonardo Antan procura separar a mulher histórica, real, dos mitos e lendas que surgiram em torno dela.
Talvez tenha sido esse primeiro desfile que inspirou o cineasta Cacá Diegues (1940-2025) a produzir, em 1976, o célebre filme “Xica da Silva”, estrelado pela atriz Zezé Motta (1944). Xica da Silva aparece na tela exuberante, sensual, deusa de ébano de olhar penetrante, agressivo e desafiador. O mito ganhou um corpo e uma voz.
A novela da extinta TV Manchete, que foi ao ar entre 1996-1997, apresentou a jovem atriz Taís Araújo (1978) no papel-título. O texto era de Walcyr Carrasco (1951) e direção de Walter Avancini (1935-2001). A trama foi inspirada nos livros “Chica que Manda”, de Agripa Vasconcelos, e “Xica da Silva”, do já citado João Felício dos Santos. Uma novela de gosto duvidoso, apelativa, com cenas de nudez, feitiçarias e torturas físicas.
Surge agora o relato “Meu Nome é Francisca: uma história de Chica da Silva”, de autoria da historiadora carioca Mary Del Priore (1952). Trata-se de um monólogo na voz de Chica. A autora destaca questões como o sincretismo, a mistura das religiões cristã e africana; o folclore com cantigas e descrição de festas populares; a mestiçagem como uma espécie de “avalanche”. Casos como o relacionamento de Chica e João Fernandes eram comuns naquela sociedade fluida, branqueada, onde mulatos enriqueciam e mulheres jogavam com as armas da sedução e da resistência.
Mary exalta a beleza de Chica, que herdara a harmonia das pretas mina: pernas longas, olhos negros, nariz pequeno, lábios cheios. Além de se mover com graça e doçura. João Fernandes apaixonou-se. Mary faz um retrato de cada um dos filhos de Chica e seus destinos, enquanto o Tijuco vira uma cidade movimentada pelo garimpo, com sua realidade de feitores, vigias, roubos e desvios.
Chica amava teatro e montou um palco na sua chácara Palha, Dedicava-se a obras sociais. Uma personalidade brilhante. Embora João Fernandes amasse Chica, um dia precisou partir. O pai havia lhe deixado uma herança, ameaçada por uma madrasta obstinada. Ela sabia que ele não voltaria. A vida seguiu em frente. Envelheceram irremediavelmente separados por um oceano que parecia feito de diamantes líquidos.
Mary conclui que, sobre os ombros dessa extraordinária personagem, estão os historiadores que contaram sua história. Unimo-nos a eles, a tantas e diferentes versões, enquanto ouvimos a voz de Chica da Silva. Chica, uma alma, um fantasma ainda vagando pela névoa das serras.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
-DEL PRIORE, Mary. Meu nome é Francisca: uma história de Chica da Silva. Rio de Janeiro: José Olympio 2026.
-MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.





Excelente!!!
Um bravo! A Raquel
A Raquel nos brinda com mais um texto antológico.
gostei muito.