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Texto - Aquele senhor, aquele abraço, por Inorbel Maranhão Viégas

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 14 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de texto poético com o jornalista, poeta e escritor de Brasília, Inorbel Maranhão Viégas, com Aquele senhor, aquele abraço.


Aquele senhor, aquele abraço


Anoto palavras para não esquecê-las. Faço isso com aquelas que me atraem. Com as que não uso de forma repetida em meus textos. É um hábito que tenho há tempos. Nem me recordo ao certo desde quando. Creio que trago isso graças não apenas pelo gosto da leitura, mas pelo prazer da audição, também.


A harmonia caprichosa que existe na união das palavras, sobretudo das que nascem da poesia e se tornam canções, sempre me causou admiração. E me provocou.

Houve tempo em que eu decorava as letras das músicas com grande facilidade. Quando os bolachões de vinil entraram definitivamente em minha vida eu sabia a sequência exata do lado A e do Lado B de cada disco da minha coleção.


Assim, decorava as letras, os acordes iniciais, as melodias. Gostava de me desafiar antecipando no assobio a música que viria a seguir, toda vez que um disco dava inicio ao giro de 33 rotações por minuto e o som grave da radiola preenchia o ar da sala de minha casa. Muitas vezes me imaginei pronto para participar daqueles programas cujo prêmio maior era dado a quem acertasse qual era a música a partir dos primeiros cinco acordes. Algo que nunca passou de um desejo de adolescente.


Também me pergunto, ainda hoje sem saber a resposta, por que essa paixão por letra e música nunca me deram coragem suficiente para aprender a tocar um instrumento? Está aí uma resposta que nem os longos anos de psicanálise me permitiram alcançar.

Ontem à noite, assistindo o show de Gilberto Gil e banda, na turnê Tempo Rei, que ele mesmo definiu como a última da sua carreira, reencontrei-me com a alegria de lembrar letras e músicas, como havia tempos não acontecia.


Integrei um grupo de mais ou menos 50 mil pessoas dentro da Arena Mané Garrincha (campo de futebol transformado em palco para a mega apresentação). Gil, que completa 83 anos neste mês de junho, mostra vitalidade de menino no palco. Canta, dança, conta histórias, se emociona, enche a gente de orgulho. Entre uma música e outra, apresenta os filhos, amigos, netos e nora que integram o grupo sonoro que o acompanha nessa jornada musical. Sem nunca perder o tom.


A costura do show é um convite à cantoria. Em quase três horas de espetáculo Gil desfila um cordão de sucessos que nascem com o início da sua carreira, atravessam os seus mais de 60 anos de estrada musical e chegam aos dias de hoje sem pressa de acabar.


O Mané Garrincha lotado presenciou um espetáculo comovente, alegre, eufórico, marcante. Desses que a gente não percebe o tempo passando. E que quando acaba faz a gente querer mais, ainda que se tenha a certeza de que acabou mesmo.

Diante de nós, o doce bárbaro, baiano que viveu o desterro em Londres, que ajudou a calar a ditadura e que passou pela política sem manchar sua história (o que por si só é um imenso feito) mostra inteiro a que veio.


Balança no ar um reggae macio que emoldura suas raízes africanas, embala nossos sonhos, acolhe nossos amores, aplaca nossa dor e ilumina nosso riso. O tempo é mesmo rei para Gilberto Passos Gil Moreira. Aquele senhor, hoje tenho certeza, habita um terreno de esquina, livre de impostos, do lado esquerdo do meu peito. Eu canto, danço e agradeço.


Inorbel Maranhão Viegas

Brasília 09/06/2025

 
 
 

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