Texto - Anitta encontra o equilíbrio entre o funk e as raízes do Brasil, por Rogério Zanetti


Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de texto com o jornalista, escritor e poeta de Campo Grande (MS), Rogério Alexandre Zanetti, com Anitta encontra o equilíbrio entre o funk e as raízes do Brasil
Em EQUILIBRIVM II, a artista alcança uma maturidade criativa que já vinha sendo anunciada em seus trabalhos mais recentes.
Sempre fui um crítico da obra criativa de Anitta. Embora jamais tenha ignorado sua extraordinária capacidade de compreender o mercado, construir uma carreira internacional e transformar a própria imagem em um fenômeno de comunicação, durante muito tempo considerei sua música menos interessante do que a personagem pública criada ao redor dela.
Anitta sempre me pareceu uma artista extremamente competente na administração da carreira, mas nem sempre igualmente convincente naquilo que deveria estar no centro de tudo: a música. O sucesso era inegável; a relevância cultural, evidente; mas sua produção artística, em muitos momentos, parecia subordinada às tendências, às coreografias virais e às estratégias de ocupação do mercado internacional.
É justamente por isso que EQUILIBRIVM II merece atenção.
O novo álbum apresenta uma evolução impressionante — evolução que, aliás, já vinha sendo percebida em seus trabalhos mais recentes. Há algum tempo, Anitta demonstra maior interesse em ultrapassar os limites mais previsíveis do pop comercial e reencontrar uma identidade brasileira que não seja apenas um adereço exótico para exportação. Em EQUILIBRIVM II, essa procura parece alcançar sua forma mais consistente.
O funk como ponto de partida, não como fronteira
Anitta não abandona o funk que a revelou e sustenta parte importante de sua identidade artística. Ao contrário: ela o reposiciona. O ritmo deixa de funcionar apenas como uma fórmula destinada às pistas e passa a servir de base para uma experiência musical mais ampla.
Ao funk são incorporados elementos do samba, do forró, do ijexá, do afoxé, do reggae, da música eletrônica e de sonoridades africanas e afro-brasileiras. O álbum também abre espaço para vozes, referências e cosmologias dos povos originários.
O resultado poderia facilmente ter se transformado em uma coleção desordenada de influências. Não é o que acontece. Apesar da diversidade, o disco preserva uma coerência sonora interessante. As canções conversam entre si, como diferentes caminhos que conduzem a um mesmo território: um Brasil popular, ancestral, urbano, espiritual e profundamente miscigenado.
Há no trabalho uma artista menos preocupada em provar que pode soar estrangeira e mais disposta a mostrar ao mundo a complexidade da música produzida no Brasil.
Encontros que acrescentam, em vez de decorar
As participações especiais não aparecem apenas como nomes famosos utilizados para impulsionar números nas plataformas. Em boa parte do álbum, elas ajudam a construir a identidade das próprias canções.
Alceu Valença imprime sua força nordestina e sua conhecida inquietação musical em “Não Me Cutuca”, faixa na qual o forró, a psicodelia e a batida contemporânea convivem com naturalidade. Mart’nália leva para “Feitiço” a experiência do samba, a força dos terreiros e aquela voz que parece carregar muitas esquinas, rodas e madrugadas do Rio de Janeiro.
Para nós, sul-mato-grossenses, uma das presenças mais simbólicas é a do Brô MC’s, grupo de rap indígena formado por jovens Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul. Em “Oke”, ao lado de Katú Mirim, o grupo não surge apenas como representação protocolar da diversidade brasileira. Sua presença amplia o sentido do álbum, incorporando línguas, identidades e perspectivas historicamente mantidas à margem da indústria cultural.
O disco ainda reúne nomes como Maria Bethânia, MC Tha, Alexandre Carlo, Mestrinho, KING Saints, Letícia Fialho e Grupo Ofá, reforçando a proposta de aproximar gerações, territórios, crenças e diferentes tradições musicais brasileiras. A relação completa de faixas e convidados está disponível nas páginas oficiais do álbum no Spotify e na Apple Music.
Ancestralidade sem perder a contemporaneidade
Outro mérito de EQUILIBRIVM II está em compreender que ancestralidade não significa permanecer preso ao passado. Anitta utiliza referências africanas, indígenas e religiosas dentro de uma produção moderna, eletrônica e acessível.
Atabaques, cantos, rimas, sintetizadores e batidas digitais são reunidos sem que o disco pareça uma colagem artificial. A espiritualidade de matriz africana, tão presente em diversas faixas, não é tratada apenas como estética. Ela ocupa o centro conceitual do trabalho e contribui para dar unidade a um álbum que fala de fé, proteção, identidade, desejo, enfrentamento e pertencimento.
Há coragem nessa escolha, sobretudo em um país que ainda convive com forte intolerância religiosa. Ao trazer essas referências para um projeto de grande alcance popular, Anitta ajuda a iluminar manifestações culturais que durante séculos foram perseguidas, caricaturadas ou empurradas para a invisibilidade.
O meu direito — e o dever — de rever uma opinião
Reconhecer a evolução de um artista não significa apagar as críticas feitas anteriormente. Significa apenas manter a honestidade intelectual diante de uma obra que se modificou e evoluiu.
Continuo acreditando que boa parte da produção anterior de Anitta esteve excessivamente ligada à lógica do mercado e à fabricação de sucessos instantâneos.
Mas seria injusto analisar EQUILIBRIVM II carregando os mesmos preconceitos construídos a partir de fases anteriores de sua carreira.
Este é um trabalho mais maduro, mais brasileiro e musicalmente mais ambicioso. Não se trata apenas de uma cantora popular experimentando novos ritmos, mas de uma artista começando a compreender que sua maior força talvez não esteja em imitar o que o mercado internacional espera do Brasil, e sim em apresentar ao mundo aquilo que somente o Brasil pode produzir.
EQUILIBRIVM II não abandona o funk, nem deveria. O álbum amplia suas possibilidades, aproxima-o da África, dos povos originários, dos terreiros, do samba, do Nordeste e das muitas vozes que formam este país.
Depois de tantos anos criticando a obra criativa de Anitta, é preciso reconhecer que ela encontrou um caminho artístico muito interessante. E encontrou também o equilíbrio entre a estrela global que construiu e a artista brasileira que ainda estava procurando ser.
Em EQUILIBRIVM II, a artista alcança uma maturidade criativa que já vinha sendo anunciada em seus trabalhos mais recentes.
Sempre fui um crítico da obra criativa de Anitta. Embora jamais tenha ignorado sua extraordinária capacidade de compreender o mercado, construir uma carreira internacional e transformar a própria imagem em um fenômeno de comunicação, durante muito tempo considerei sua música menos interessante do que a personagem pública criada ao redor dela.
Anitta sempre me pareceu uma artista extremamente competente na administração da carreira, mas nem sempre igualmente convincente naquilo que deveria estar no centro de tudo: a música. O sucesso era inegável; a relevância cultural, evidente; mas sua produção artística, em muitos momentos, parecia subordinada às tendências, às coreografias virais e às estratégias de ocupação do mercado internacional.
É justamente por isso que EQUILIBRIVM II merece atenção.
O novo álbum apresenta uma evolução impressionante — evolução que, aliás, já vinha sendo percebida em seus trabalhos mais recentes. Há algum tempo, Anitta demonstra maior interesse em ultrapassar os limites mais previsíveis do pop comercial e reencontrar uma identidade brasileira que não seja apenas um adereço exótico para exportação. Em EQUILIBRIVM II, essa procura parece alcançar sua forma mais consistente.
O funk como ponto de partida, não como fronteira
Anitta não abandona o funk que a revelou e sustenta parte importante de sua identidade artística. Ao contrário: ela o reposiciona. O ritmo deixa de funcionar apenas como uma fórmula destinada às pistas e passa a servir de base para uma experiência musical mais ampla.
Ao funk são incorporados elementos do samba, do forró, do ijexá, do afoxé, do reggae, da música eletrônica e de sonoridades africanas e afro-brasileiras. O álbum também abre espaço para vozes, referências e cosmologias dos povos originários.
O resultado poderia facilmente ter se transformado em uma coleção desordenada de influências. Não é o que acontece. Apesar da diversidade, o disco preserva uma coerência sonora interessante. As canções conversam entre si, como diferentes caminhos que conduzem a um mesmo território: um Brasil popular, ancestral, urbano, espiritual e profundamente miscigenado.
Há no trabalho uma artista menos preocupada em provar que pode soar estrangeira e mais disposta a mostrar ao mundo a complexidade da música produzida no Brasil.
Encontros que acrescentam, em vez de decorar
As participações especiais não aparecem apenas como nomes famosos utilizados para impulsionar números nas plataformas. Em boa parte do álbum, elas ajudam a construir a identidade das próprias canções.
Alceu Valença imprime sua força nordestina e sua conhecida inquietação musical em “Não Me Cutuca”, faixa na qual o forró, a psicodelia e a batida contemporânea convivem com naturalidade. Mart’nália leva para “Feitiço” a experiência do samba, a força dos terreiros e aquela voz que parece carregar muitas esquinas, rodas e madrugadas do Rio de Janeiro.
Para nós, sul-mato-grossenses, uma das presenças mais simbólicas é a do Brô MC’s, grupo de rap indígena formado por jovens Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul. Em “Oke”, ao lado de Katú Mirim, o grupo não surge apenas como representação protocolar da diversidade brasileira. Sua presença amplia o sentido do álbum, incorporando línguas, identidades e perspectivas historicamente mantidas à margem da indústria cultural.
O disco ainda reúne nomes como Maria Bethânia, MC Tha, Alexandre Carlo, Mestrinho, KING Saints, Letícia Fialho e Grupo Ofá, reforçando a proposta de aproximar gerações, territórios, crenças e diferentes tradições musicais brasileiras. A relação completa de faixas e convidados está disponível nas páginas oficiais do álbum no Spotify e na Apple Music.
Ancestralidade sem perder a contemporaneidade
Outro mérito de EQUILIBRIVM II está em compreender que ancestralidade não significa permanecer preso ao passado. Anitta utiliza referências africanas, indígenas e religiosas dentro de uma produção moderna, eletrônica e acessível.
Atabaques, cantos, rimas, sintetizadores e batidas digitais são reunidos sem que o disco pareça uma colagem artificial. A espiritualidade de matriz africana, tão presente em diversas faixas, não é tratada apenas como estética. Ela ocupa o centro conceitual do trabalho e contribui para dar unidade a um álbum que fala de fé, proteção, identidade, desejo, enfrentamento e pertencimento.
Há coragem nessa escolha, sobretudo em um país que ainda convive com forte intolerância religiosa. Ao trazer essas referências para um projeto de grande alcance popular, Anitta ajuda a iluminar manifestações culturais que durante séculos foram perseguidas, caricaturadas ou empurradas para a invisibilidade.
O meu direito — e o dever — de rever uma opinião
Reconhecer a evolução de um artista não significa apagar as críticas feitas anteriormente. Significa apenas manter a honestidade intelectual diante de uma obra que se modificou e evoluiu.
Continuo acreditando que boa parte da produção anterior de Anitta esteve excessivamente ligada à lógica do mercado e à fabricação de sucessos instantâneos.
Mas seria injusto analisar EQUILIBRIVM II carregando os mesmos preconceitos construídos a partir de fases anteriores de sua carreira.
Este é um trabalho mais maduro, mais brasileiro e musicalmente mais ambicioso. Não se trata apenas de uma cantora popular experimentando novos ritmos, mas de uma artista começando a compreender que sua maior força talvez não esteja em imitar o que o mercado internacional espera do Brasil, e sim em apresentar ao mundo aquilo que somente o Brasil pode produzir.
EQUILIBRIVM II não abandona o funk, nem deveria. O álbum amplia suas possibilidades, aproxima-o da África, dos povos originários, dos terreiros, do samba, do Nordeste e das muitas vozes que formam este país.
Depois de tantos anos criticando a obra criativa de Anitta, é preciso reconhecer que ela encontrou um caminho artístico muito interessante. E encontrou também o equilíbrio entre a estrela global que construiu e a artista brasileira que ainda estava procurando ser.





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