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Reflexão -Diário de uma Idosa, 327 por Joana Prado Medeiros

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 14 minutos
2 min de leitura

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto de reflexão com a professora universitária, historiadora, poeta e escritora de Dourados (MS), Joana Prado Medeiros, com seu Diário de uma Idosa 327


CARTA A MANOEL...


Maninho, você já tem netos, um casal, e são lindos. São parecidos com você. Por aqui o tempo é enferrujado e parece um cabo de guarda-chuva velho e abandonado. Eu tenho cabelos brancos e os braços parecem cipó em cima das pinguelas que tenho que atravessar. Não tenho as suas orelhas de abano, mas juro, eu abano todas as nossas canções. Caminho na trilha sonora dos nossos dias, sem levar em conta as quatro décadas que nos separam fisicamente. Meus dias são recheados de afazeres e dissabores e, às vezes, de contentamentos. Contudo, o que me faz escrever-te estas mal traçadas linhas é exatamente a falta que sinto de você. Sei que é por pura, imaginação e amor, o fato é que sinto falta de você chegando para provar o feijão que faço. Penso sempre no seu sorriso maroto, nos seus cabelos negros e na sua voz dizendo: - Eu sou bonito! Sim, você é bonito e partiu assim. Sua juventude é o espelho no qual miro a minha, agora tão distante. Às vezes me pego conversando com você e ouço sua voz e vejo seus trejeitos. Daí uma luz clareia e tenho forças para seguir. Sou rebelde e teimosa. Por aqui tento fazer valer o que me vai na alma. Ainda assim, tenho que confessar: não vejo a hora de te abraçar. Tento, e sei que a cada dia basta o seu mal e o seu bem. A dor da saudade é um leque atemporal que faz vento sem a gente pedir. O céu está escuro e paira sob o nosso Brasil, ouço nosso Rod Stewart e chamo seu nome. Ainda mastigo maçãs no escuro.

Beijos esperançosos de quem te ama além do tempo.

(Joana Prado Medeiros)

 
 
 

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