• Alex Fraga

Reflexão – Diário de uma Idosa XXI, por Joana Prado Medeiros

Sexta-feira é dia de mais uma reflexão da historiadora, professora universitária, poema e escritora de Dourados (MS), Joana Prado Medeiros com Diário de uma Idosa XXI.




É madrugada e eu sem dormir, desespero amanhã fazer almoço de Páscoa e não durmo... Meu coração quer passear chama a memória e sai feito louco. Vi seu rosto, teus olhos ao sorrir. Recordei o gesto que você fazia com o dedo indicador circulando o polegar, repeti o gesto... Vontade de ouvir o som de sua voz... Desespero não consigo, busco ouvir outras vozes e estas sim eu escuto o som da voz de minha mãe, do maninho, do meu tio e padrinho, do Italianin meu grande e único amor...Mode que sua voz não recordo o timbre? Céus, onde está sua voz... São 3 horas da manhã vejo você, sua roupa, seu chapéu, seu pala nos ombros a cuia e a chaleira nas mãos e nada dá tua voz. Abro a porta e a noite me entra feito uma amante sedenta. A madrugada é tão linda... Olho estrelas e vem chegando um sussurro feito patas de capivara na mata...Ouço e escuto o som de sua voz tão real quanto as batidas do coração e ouço você declamando: meus oito anos, você me dizendo: ora direis ouvir estrelas...Escuto você cantado felicidade foi sem embora e no meu peito a falsidade não vigora, ouço sua voz trêmula cantando chalana...tão nítido quanto o som de uma porta que se abre...por último como um sino das igrejinhas das aldeias portuguesas ouço bem de pertinho você me chamando: Nininhaaa...Nem respiro pro encanto não espantar. E para repicar o meu pranto ouço então você de braço direito levantado gritando: Maninhoooo clamando o filho morto. Não, não, não, sinto meu rosto molhado sinto a tese a antítese e sintase a plena consciência do véu partido ao meio e finalmente o encontro pleno de nossas almas ...Perplexa, compreendo as que as outras vozes amadas são vozes do cotidiano mas, a sua voz...Ah! a sua voz meu pai é voz de poeta...A voz do lúdico da magia do faz de conta a voz da solidão do ser uníssono. Agora, só agora descubro você por inteiro...E justo eu que achava que te conhecia tão bem! Fico morninha peito aquecido de ternura e descubro as mil possibilidades de contigo sentipensar, sentiviver, sentisaudades...Pai você assinava os seus versos com o nome: "Bigode de prata" eu achava meio ridículo e agora vejo combina perfeitamente com o seu eu conquistador e enamorado um fidalgo caliente da fronteira do Brasil com o Uruguai. Pedro Medeiros, meu poeta solidário da beira da estrada por que demorei tanto para enxergar sua essência? Por que? Por que camuflamos ate a nossa essência? E não vemos também a do outro? Por que? Sinto cheiro da Dama da noite a flor que você sempre trazia para mim... vou dormir quer saber eu tenho certeza que existe uma escada rolante que nos leva até o solar dos encontros divinos. Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida...


( Joana Prado Medeiros - 04/04/2021) E pandemia.


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