• Alex Fraga

Reflexão - Diário de uma Idosa, 65, por Joana Prado Medeiros

Nesta quarta-feira no Blog do Alex Fraga, o texto de reflexão da historiadora, professora universitária, poeta e escritora, Joana Prado Medeiros, com seu Diário de uma Idosa




Estou doente de ser... Não "sou" doente estou e ser é diferente de ser...E onde resiste o fino fio que separa ou enlaça uma coisa na outra? ...Amarro uma fitinha vermelha no dedo indicador para lembrar...E aponto para meu ser todas as alegrias de acordar sempre bem humorada, de cantar com os passarinhos as vitórias do dia, aponto para meus inúmeros certificados e feitos de vinte seis anos de trabalho, que ainda continuo pós a aposentadoria, aponto a família linda que tenho e como enfeite supremo o meus livros, meus discos e a centenas de fotos das vivências felizes...E viro o dedo e aponto para mim o estar doente...Aponto para meus olhos e estes estão cansados adoecidos de ver absurdas discriminações e arbitrariedades realizadas minuto a minuto no solo de meu país...Aponto para meus ouvidos e estes estão em pane por ouvir as barbaridades do governo e seus comparsas...Aponto para o meu nariz e este leva até o estômago manuseado o cheiro dos casebres miseráveis e da fome dos diversos vizinhos desempregados e dos indígenas a revirar os lixos dos condomínios...Aponto para minha boca e esta com a língua seca encoberta pela máscara não sorri...Aponto para meu peito e este dói de coração disparado gritando por direitos humanos e democracia...Aponto para meu pulmão e este em meio a fumaça das queimadas e desolação respira pela metade e ainda sente o sufoco dos negros mortos sem respirar...Aponto então para a minha alma e esta só sente o apartheid dos discursos de ódio e das fakenews...Olha com olhar descabido as diversas pessoas de bíblia na mão a acenar armas em punho. Por fim tomo todos os remédios diversos antí

dotos para não adoecer..."ser"...Ouço mantras, músicas clássicas e MPB, Jazz e recorro a boa música para não enlouquecer...Leio e releio os clássicos da literatura faço caminhadas, mastigo feito chicletes poesias para entre outras coisas renovar a saliva e o gosto de viver...Tento de todas as maneiras entrelaçar o laço do ser e estar...Sem querer fazer diagnóstico precoce...Com apenas juízo de valor coisa que abomino: - Sinto mesmo que doente é essa época que estou a viver...Os valores humanos na antessala estão no limbo... Interregno!?... Não sei se sou ou se estou... Sei que dói.

( Joana Prado Medeiros - 22/09/2021. É Pandemia.

— sentindo-se de coração partido.

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