• Alex Fraga

Reflexão – “Diário de uma Idosa 38”, por Joana Prado Medeiros


Nesta quarta-feira, texto de reflexão ao Blog do Alex Fraga da historiadora, professora universitária, poeta e escritora de Dourados (MS), Joana Prado Medeiros com “Diário de uma Idosa 38”.


Eu sou pequena burguesa, faço parte da famigerada classe média, essa, que pulula de um barco ao outro que abraça os velhos ricos que mudaram a cerca e avançaram tomando terras dos pequenos e abraçam os novos ricos que fazem contrabandos e sonegam impostos, sou cria dos capachos da antiga UDN, sou filha das tradições que regam a conta gotas suas caridades, sou filha de pais que acreditavam na escola privada, sou filha da escola de debutantes, e nesta escola a escolha política vinha atrelada ao cabresto de manter o emprego...Cresci sem saber o preço da vida, até pouco tempo não sabia o preço do gás, o que me custou muito caro, paguei em cinquenta tons de cinza por ser filhinha da mamãe, sou bisneta de senhores de engenho escravocratas, enrolando seus bigodes no grande casario com suas senzalas e pelourinhos...No obstante quando o tempo do labor se fez, eu vi o brilho das lágrimas dos trabalhadores tomou de conta meus olhos e quando a leitura da leitura vestiu em mim sua camisola nem era noite de lua cheia me rebelei...A contenta foi posta e dela fiz meu jantar, não sou hoje uma revolucionária "raiz" pois não sei o que é tomar uma condução pública abarrotada de gente as cinco da manhã, mas sei da mais valia e sei da alienação que me conduz...O grito veio relativamente cedo...Fui mestre em ferir o velho condado da classe média pequeno burguês...Apaguei as tochas das discriminações e ascendi as lutas em prol de uma sociedade justa e igualitária, luto por políticas públicas etc. Desde então equilibro minhas raizes em festival nefasto de dificuldades, pois não se apaga nossas memórias afetivas e históricas como num passe de mágica...Para os esquerdistas não sou esquerda! Para os desgraçados da direita não sou direita... E assim sigo, sou esquerdinha nutela!? Diletante!? Diletante a puta que os pariu... Eu creio em Deus sim, eu faço bordados, eu tenho plantas, eu gosto de mesa com bolo de fubá e família em volta, eu sou senhorinha destronada, eu sonho sim, eu NÃO atravessei nenhum dos umbrais da sociedade, nem por isso eu comungo com todas as mazelas, para mim bandido bom é bandido em cadeias justas com o devido respeito à vida. Eu sonho a liberdade de escolha, o direito de ter direito e sou defensora dos direitos humanos em todas as suas gerações, abomino o neoliberalismo, abomino o lucro acima do ser. E eu fiz valer minhas escolhas que foram duras pois feri a tal da moral e os bons costumes, casei e descansei e sou senhora do meu destino, feminista sim, sem o jargão de colocar o outro abaixo ou acima e sim ao lado. Alteridade sempre, respeito sim, pertencimento amém!!! Ainda que isso me custe o pão de cada dia. Enfim, muito a dizer e fazer debaixo das minhas rendas, meus chapéus e poas e as minhas roupas vintage. Eu sou marxista desde 15 anos e cada dia aprendo melhor esmerilhando o brilho do ideário comunista de ser. Em tempo, meu pai faleceu com uma camiseta do Lula lá e sobre o Bolsonaro minha mãe dizia: quem é este cavalo? Ele não pode se candidatar. Feliz, eles conseguiram romper com a direita...A luta é constante e começa de dentro para fora, a cada dia basta seu mal e as vezes o mal começa em nosso próprio olhar. Não vamos reconstruir uma sociedade justa sem nos colocarmos como sujeitos dela. Estilhaçar nossas vidraças faz parte.


( Joana Prado Medeiros - 18/06/2021) É Pandemia.


— sentindo-se com raiva.

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