top of page

Reflexão - Diário de uma Idosa 308, por Joana Prado Medeiros

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 15 de abr.
  • 2 min de leitura

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto de reflexão com a professora universitária, historiadora, poeta e escritora de Dourados (MS), Joana Prado Medeiros, com seu Diário de uma Idosa 308.


WISLAWA SZYMBORSKA & EU...


O que importa é o caminho. Um dia de cada vez. As folhas da minha folhagem outonal, algumas estão amarelas e outras já caíram do galho, contudo algumas renascem. Enquanto ferve o feijão na minha cozinha, o cozimento do retorno se faz. De exercer e pertencer a algo tão sonhado dos tempos da juventude. Caminho pela faculdade, nos mesmos locais que percorri enquanto professora e agora na condição de aluna. Revejo o saguão, tomo conhecimento do banheiro dos alunos, a biblioteca, e sinto um misto de encantamento que não sei explicar. É certo que o olhar tem seu lugar de mirar. Não me desfaço das bagagens que carrego, contudo e todavia percebo com zelo e reverência o que vejo.Tento não misturar o quadrado da hipotenusa de minhas inquietações.O contato com entes jovens e sonhadores revigora e dá energia. Estou na ante-sala das provas (perdi muitas aulas) e ainda carrego o pensar histórico, a mentalidade histórica, o vocabulário histórico... Ler textos jurídicos me assusta. Vasculho o meu ser e leio epistemologia e hermenêutica jurídica, e tento descaradamente ir forjando em mim outro viés de ideário, outra linguagem. Ao mesmo tempo, sobre a forma de conversar com os jovens é como um nó quase cego, me vejo abrindo cortinas e acabo misturando a Joana dos tempos da primeira faculdade com a de agora. Pressinto que terei que ter cuidados...Afinal, é bom ter consciência do que se é. A empolgação não pode de modo algum borrar o senso do ridículo e nem o de pertencimentos. Somos o que somos e deixo aqui para reflexão um poema que muito amo e que me acompanha como uma lanterna...Eis:


" Filhos da época",

de Wislawa Szymborska


"Somos filhos da época

e a época é política.


Todas as tuas, nossas, vossas coisas

diurnas e noturnas,

são coisas políticas.


Querendo ou não querendo,

teus genes têm um passado político,

tua pele, um matiz político,

teus olhos, um aspecto político.


O que você diz tem ressonância,

o que silencia tem um eco

de um jeito ou de outro político.


Até caminhando e cantando a canção

você dá passos políticos

sobre um solo político.


Versos apolíticos também são políticos,

e no alto a lua ilumina

com um brilho já pouco lunar.


Ser ou não ser, eis a questão.

Qual questão, me dirão.

Uma questão política.

Não precisa nem mesmo ser gente

para ter significado político.


Basta ser petróleo bruto,

ração concentrada ou matéria reciclável.

Ou mesa de conferência cuja forma

se discuta por meses a fio:

deve-se arbitrar sobre a vida e a morte

numa mesa redonda ou quadrada.


Enquanto isso matavam-se os homens,

morriam os animais,

ardiam as casas,

ficavam ermos os campos,

como em épocas passadas

e menos políticas." -


Do livro Poemas, tradução de Regina Przybycien, publicado pela Companhia das Letras.


(Joana Prado Medeiros - 14/04/26 - Direitos Autorais Lei 9.610/98)


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page