• Alex Fraga

Reflexão – Diário de uma Idosa 29, por Joana Prado Medeiros


Quarta-feira, dia de texto da historiadora, professora universitária, poeta e escritora de Dourados (MS), Joana Prado Medeiros com Diário de uma Idosa 29.



Era semana Santa, recesso das aulas da faculdade, ela adoentada veio passar a semana em casa, estudava fora. Na quarta-feira de cinzas pega o exame de gravidez e o resultado em câmera lenta dança o tango da vida, vai pra frente e pra trás... Adelante, entrelaça as pernas, curva a cabeça e os ombros... Positivo, positivo, positivo. Ela treme no compasso e se sente feliz, uma inocente felicidade lhe guia os passos ao descer às escadas do laboratório em cima das casas Buri. Era domingo de Páscoa, ele foi a Missa, ela o espera na saída da igreja. Ele com um ovo de Páscoa ela com vida carregando vai dizendo: Estou grávida!!! Ele afirma está novinho ainda. Amanhã te levo ao Paraguai e você tira, não podemos ter eu não quero, podemos até nos casar. Mas, o filho eu não quero, escorreu chocolates com lágrimas dos olhos dela... Virou às costas e se foi...Nem sentia o chão...Contou aos pais, o pai pegou o 38 niquelado cano longo o mesmo que um dia ensinou a filha a atirar, vamos à casa deste desgraçado, ele vai casar sim, com as pernas bambas ela franzida, enrugada de vergonha tenta entrar no carro e não consegue. Seus pais a cercam e ela murmura: Não pai, não pai, não pai o senhor não pode força-lo eu deitei com muitos homens não sei se ele é o pai...A mãe lhe grita na cara: sua puta! O pai envelhecido mil anos a abraça e lhe conforta... Em seu primeiro dia das mães ela com enorme barriga ganha flores do pai e uma lata de goiabada porque estava com desejo, de mãos dadas olhando as estrelas ela confessa ao pai amigo: Eu menti pai, o senhor não conta pra mãe, não conta para meu padrinho não conta ninguém, não quero ninguém obrigando ninguém, eu não dormi com muitos homens, só não quero casar com quem meu filho quer matar...O pai, com os olhos ao longe lhe aperta a mão compreendendo o amor dobrado que já lhe retirava o direito de cometer desatinos ele em nome do neto filho amado tinha que ser mais homem do nunca. Ela carrega até hoje na barriga e nas entranhas todos os preconceitos... Era domingo de Páscoa e de seus olhos ainda vestígios de sangue escorrem. Mas, o ventre o ventre pariu constante renovação... Pariu a alegria de seus dias.

{Joana Prado Medeiros 04/05/2021) É Pandemia.




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