• Alex Fraga

Reflexão – Diário de uma Idosa 27, por Joana Prado Medeiros

Sexta-feira de reflexão da historiadora, professora universitária, poeta e escritora, Joana Prado Medeiros, com seu Diário de uma Idosa, desta vez do número 27 ao Blog do Alex Fraga


Quando eu era pequena lá no sitio em Café Porã (MS), Fazenda Proteção, conhecida como Colônia dos Baianos, eu tinha dois gatinhos e um passarinho, tinha patinhos e também um cafezal quando eles se botavam em flor eram o mar que conheci... E também tinha a lua que era a minha namorada, quando cheia "alumiava" os cafezais e estes aparecia sob meus olhos vestidos com saias rodadas parecendo negras em festas...A lua cobria de prata o chão da reta que era a estrada de chão vermelho que passava a pé os desconhecidos irmãos indígenas moradores da aldeia vizinha os Bugres que trocávamos risadas e prosas. A lua tremia sob o som da sanfona que meus tios tocavam e o tocado era mais alto que a voz de trovão do meu avô gritando "estro diacho" voz de nordestino alimentando a porcada. Disque não havia poesia, havia a avó atiçando a lenha e a gurizada no terreiro brincando de caçar vagalumes. Enchíamos um litro de vidro transparente peça rara e disputada e guardávamos os pobrezinhos dentro da peça rara. Durante a noite era uma super lanterna e balançávamos o litro gritando: Vagalume tem tem teu pai tá aqui sua mãe também! E assim o concurso seguia, vencedores cada um guardava sua garrafa de luz. Durante o dia estes eram toquinhos marronzinhos....Na noite seguinte a festa desdobrava e era a vez de soltar os iluminados vagalumes estes saiam tontos e faziam um estralinho abrindo as asas a voar em luz. O céu de lua cheia ganhava luzes em nossas cabeças, a musica do tio ecoavam e ouvíamos a canção: "oh abre a porta e a janela para ver quem é que eu sou"...E o sonho (des)sonhava e sem saber de dor ou amor tínhamos que entrar então era formado uma fila para lavar os pés para ir dormir...As vezes dividíamos a mesma bacia havia um pano pra todos. Então passávamos pela cozinha e tomávamos o chá de brasa de vez enquanto tinha bolinho frito cada um pegava dois. E íamos deitar então deitávamos todos juntos em um grande colchão no chão as meninas em um quarto os meninos em outro. Minha avó colocava uma lamparina em um patente entre a sala e os quartos e todos deitados era a hora da falação os grandes falavam os pequenos riam e conversávamos em um dialeto único. Era um tal de contar as fofocas todos deitados gritando para todos os quartos. Lá pelas tantas minha avó ordenava hora de dormir e cada um de nós gritava bença mãe, bença pai, bença vó e vô bença tio Tonho benção tia e às vezes um de nós gritava benção todo mundo....A casa silenciava e bem cedinho eu não levantava eu sempre fui a última a levantar ...Gostava de ouvir o torrar do café e o barulho do fogo ao ser aceso...Ainda hoje a lua que foi testemunha dos meus primeiros clarões me veste e os vagalumes dentro do meu coração durante o dia dorme e a noite eles saem...Continuo lavando os pés para seguir e contínuo pedindo a bença ... bença

mãe bença pai bença meus avós...E agora compreendo os vagalumes eles viam porque dizíamos "seu pai tá aqui sua mãe também" ...


( Joana Prado Medeiros - 23/04/2021) É Pandemia.

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